Tive uma semana conturbada, cheia de altos e baixos. Semana de projeto de doutorado, de 48 horas insone, de leituras, fracassos pessoais e vitórias interiores. Semana íngreme, de dores, de reflexões. Perdemos Maria, uma amiga de pouco tempo que parecia reinar em nossas vidas há tempos. Um exemplo de vida, de luta, de resistência. Morrera jovem, aos 27 anos, depois de terem lhe dado apenas 5 anos de vida. Não senti estar em um velório. A única sensação que me vinha era a de estar completamente preenchido por um sentimento de saudade absoluta. Ela estava ali, sim, em cada um de nós, viva, absolutamente viva. A menina com seu sorriso, suas bonecas, a garota que mesmo sem cabelos era vaidosa, que usava perfumes e shampoos, que tinha sede de vida e de amar. Não senti o arrepio que outrora sentira quando criança. No sertão acreditávamos que os defuntos vinham nos puxar pelo pé à noite ou que poderiam abrir os olhos quando estavam no caixão…Com ela não houve medo…Houve conforto. Ficamos observando as cruzes no cemitério, no caminho à praia (lugar que ela tanto adorava ir). Calculávamos as idades dos que lá jaziam. Homens e mulheres arrebatados na flor de suas idades. 13, 15 anos. 1 mês de vida. Alguns 80, 90 anos. Na sombra da copa de um jambeiro a menina descansara e ali, repousando sob o perfume das flores e dos frutos, muitos pássaros cantariam pra ela a sua última canção de ninar.
Janeiro 2008
Janeiro 27, 2008
Janeiro 27, 2008
Depois de mais de dois anos distante desse blog, excetuando-se um pequeno incidente no ano passado, resolvo retomar em outro endereço os meus relatos cotidianos e literários. Desta feita, resolvi retornar com novo visual e uma nova proposta. Intercalarei aqui meus pensamentos, agregando-os aos textos de forma a fundir criador e criatura, de tal forma que amalgamados se tornem um só… como se na hora do parto, mesmo cortado o cordão umbilical já não pudéssemos mais saber onde um começa e outro termina.
O recomeço é um ato doloroso e impiedoso. É trazer à tona uma série de eventos passados, uni-los ao presente e refazer a história a partir do agora, do já… ou seria do sempre, nunca?
Recomecemos.
Janeiro 27, 2008
Renascer das cinzas, como Fênix… em fogo e ressurreição.
Silenciosos
Gota a gota
Em mim passam
Minutos descompassados
Como cálices de breu e escuridão
Como fios tênues de lucidez.
Janeiro 27, 2008
Porque negar que até tu me traíste com a palavra irônica e assoberbada, com o olhar corroído de inveja e ódio ao ocultar que a perda não fazia parte de tua estirpe? Negavas com veemência a chegada de tua hora e te empunhavas de rigidez,ignorância, intolerância crua, rudeza de sentimentos.Defendia-te a ti mesmo. Praguejaste tua própria cria ao cuspir pilhérias de sarcasmo ardente, flamas de impaciência na face daqueles que te alantaram nas horas em que precisavas do sussurro de uma canção de ninar. Ao longe acalentamo-te com palavras de carinho, absorvemo-te em nossos braços calorosos e demo-te a atenção mais desejada quando olhavas o horizonte com o olhar perdido e não encontravas sequer a ti mesmo. Agora em estado petrificado de brutidão, vens tu, Brutus, dar-me a punhalada impiedosa quando acreditava que jamais receberia de ti o beijo caloroso e úmido de Judas. Traíste-me, porque um dia depositei em ti a verdade do que acreditei ser sentimento, porque fizeste-me nutrir por ti o amor circundado por sentimentos benignos, por que em ti enlacei coroas de flores. Tu me deste o fio agudo e cortante do punhal. Acreditava ter plantado e colhido flores, mas descobri que o pólen também é depositado entre espinhos e daí surgiste tu. Em um instante de revolta e dor volto-me a ti para dizer-te que do espinho nasceste e a vida te ensinará que no caminho que trilhas logo aos espinhos voltarás.
Janeiro 27, 2008
Às vezes sinto que tudo pode me fazer perder o chão, uma palavra por mais simples que pareça pode fazer com que eu tenha a felicidade conquistada a muito custo desmoronar aos meus pés como um se um terremoto tivesse deixado minha existência aos cacos. Debaixo desses destroços eu tento me refazer com a certeza de que o coração já fragmentado não terá mais a felicidade reconquistada, porque de felicidades quebradas eu tenho reconstruído cada instante de vida que me atrevo a ter. De repente, num dia chuvoso como esse, em que uma atmosfera fúnebre parece estar sempre rondando a nossa vida, sinto que a claridade fugaz dos raios de sol parece não ter significado algum. Queria um dia poder alcançar e tocar as mãos do desconhecido, questionar as inconstâncias dos dias e das horas, a errância da existência, por que por mais que existam filosofias jamais haverá respostas pro que nao tem respostas. Como dizer que vim de uma explosâo cosmica se antes da explosão já havia o átomo. Mas como então surgiu o átomo? Só sei que tudo tem um início e um fim, mas qual foi o início de tudo? Será que a nossa existência surgiu de um abismo que jamais se verá o fim? Mas até mesmo o que parece ser infinito tem fim, até mesmo as estrelas, as águas dos oceanos… porque o limite de todas essas coisas está no universo. Mas será que o universo também é infinito? Não tenho respostas pra essas indagaçoes vãs e tolas, só sei que nesse dia inconstante e tenro como o sabor de caramelo descobri que minha vida é tao ou mais insípida que a água, essa substância formada por duas moléculas de hidrogênio e uma de oxigênio. Sei que sou mais de 70% H2O e por isso, como água, líquido vital que sou, me desfaço a todo instante em formas e cores, me agrego, revolto em correntezas, me desfaço pelos caminhos, evaporo a inconstância dos climas e em um instante volto a ser a atmosfera fúnebre das gotículas que caem em chuva e que observo dos esquadros da janela que me leva a um mundo exterior e vazio como o meu.
Janeiro 27, 2008
São dias sem sentir a escuridão das horas, e quando a chama começa a raiar novamente, a escuridão se aproxima. por que de esperanças e gestos a vida inteiramente se desfez, aprendi a viver do concreto, por que já nem sei se vivo nessa abstração que se chama pulsar a vida. os pensamentos são água, substância pura que escorrem rapidamente e tenho que apanhá-los senão me escapam pelos dedos, eles me habitam e me põem contra mim mesmo, eles dialeticamente sou eu! Pudesse eu viver no silêncio se esse silêncio fosse o vazio e o inócuo, o nada, mas o nada diz mais que qualquer coisa, ele é contrario ao tudo e desse mundo obscuro, de cavernas brilhantes em que me perco sem sequer ver luzes no fim eu procuro uma saída, uma saída breve, um escape… um gesto sorrateiro de confiança Em quem? por que não dizer em mim? Eis que a dolorosa decisao é ter que me encontrar comigo mesmo todos os dias, todas as horas, descobrir que… que não sou. num dia não muito distante aprendi que preciso, como os gregos fazer meu próprio espetáculo, de máscara afivelada ao rosto e daí em diante ser o que sempre quiseram que eu fosse, eternamente usando essa máscara. o sentido da vida é eternamente mascarar-se e um dia assustar-se consigo mesmo ao crer que por trás da máscara sempre houve outra máscara, a de fingir que sempre foi outro e nunca você mesmo. A minha rebeldia, inquietação, me faz desafivelar a máscara todos os dias. vejo através dela um rosto desgastado pelas horas, mas ainda sinto no sujo e fétido material a brancura do gesso, as cores desgastadas que precisam de pintura, é sempre preciso trocar a máscara. Hoje resolvi mascarar-me de mim mesmo. E assustei-me.
Janeiro 27, 2008
Foram-se os fios e com eles toda a escassa vida que torturava, a falta de brilho, a esperança caída e dupla, a seda espinhosa… e em seu lugar brotam novos frutos de raízes fincadas, firmes, retas e cheias de perspectiva. Um novo mundo se faz à minha cabeça, mundo subterrâneo que expele os bulbos, lança-os à visão de uma nova terra, talvez a prometida, e cresce incontrolavelmente. Entre as surpresas que esta nova sensação me traz, está a a fixação do olhar no espelho e o enfrentamento com um novo ser. O estranhamento dos fios reluzentes é a tentativa de ajuntamento de um mundo que raia jovial e sólido. Farei o ajuntamento dos cacos. Já não há mais lugar para o negro e a falta de esperança. Reconheço no espelho uma nova face, e ela me ofusca, me chama e me conduz a um caminho infinitamente transcendental.
Janeiro 27, 2008
Não sei porque mas tive saudades de mim mesmo agora, como se eu já tivesse ido e aquele que aqui se expressa fosse um outro eu carregado de saudades de mim mesmo. Sentimento estranho esse que parece embotado de escuridão. Por que a solidão tem que sempre ser espinho quando poderia ao menos uma vez ser perfume e rosas, ainda que vermelhas, respingadas de sangue? O fato é que os minutos vão passando, as horas seguem rapidamente seu rumo e continuo sentindo fortemente a ausência de um outro que sinto: sou eu! Como entender que entre mim e mim existem abismos que jamais aproximarei? que entre meu sonho real e minha quimera rondam sempre espectros, sombras? por que tenho que estar sempre à revelia de todas as coisas, sempre as mil revoltas com os sistemas e as coisas, sempre mal entendido, mal interpretado, por que não ser ou estar livre e longe dos conceitos massantes e escravizadores? Queria gritar ao mundo: quero ser feliz, por tudo me deixem ser feliz! Seria esse grito rasgado como luz no fim do túnel a minha salvação. Ainda que agora eu pareça pequeno e piegas é nesse instante, entre um pensamento e outro, entre círculos rasgados de imensidão, entre os vocábulos, que vou me refazendo do sonho, do antigo e inopinado sonho de felicidade. Um dia encontrei-me com esse sentimento e jamais quis largá-lo, tentei libertar-me dele, fazer de conta que a esperança e a felicidade jamais estariam comigo, mas de nada adiantou. Poderia eu acreditar que entre suspiros, desejos, entre um último vomito de vida eu ainda possa existir sendo feliz quando o sangue que ainda jorra nessas veias em minutos se transformaria em coágulos, massas gelatinosas arremessadas as moscas e vermes em minutos de paralisação minha? Como acreditar que ainda posso arremessar felicidade aos montes se as ameaças a vida se aproximam onde quer que eu vá? Joana? Clarice? Macabéa? Laura? Lóri? Lucrécia? G.H.? Virginia? Onde estão que nao ouvem meus gritos de lamento? Onde estão que não escutam a voz desse pobre e desafamado escritor perdido entre linhas e que vos implora o silêncio das palavras, o silencio fisgado, corroído, o silêncio que entre uma e outra palavra cria abismos, mas diz mais que qualquer uma delas? respondei ó musas claricianas, atendei a minha súplica, dá-me as vossas mãos por que o caminho é longo e espinhoso e preciso de vós para crer que ainda há razão para:
…
Para quê?
…
Existir é a resposta. Continuemos sendo.
Janeiro 27, 2008
como sobreviver num mundo em que mesmo as relações mais banais me esgotam, me põem contra a parede, me fazem enojar-me das pessoas, das coisas? Vejo-me lentamente fluindo para o abismo, mis en scene. Minha vida é uma narrativa em parafuso, um contar e recontar de tragédias. Sou um anjo caído, subversor que sou. é insuportavel a legiao de demônios que me persegue, a palavra a lapidar, meus rudimentos nas rochas. Sou calcário, quartzo, mesosfera,estratosfera… composição terrestre, camadas… sou o tudo e o nada!
Janeiro 27, 2008
Por que escarafunchar a vida é sentimento que faz parte. Hoje descobri de mim, algo de tão interior que vomitei de surpresa. Descobri que num momento de revelação, diante do espelho e de mim mesmo, não sou eu; descobri que sou figura desfigurada na massa feita de areia e modelada pelas mãos humanas, o meu nariz de palhaço se desfaz numa máscara material, numa figura que sequer é humana. Tive medo ao saber que quebrando esse espelho, me esfacelarei e me transformarei em milhões. Por que o segredo da vida é estar constantemente juntando os cacos e descobrir uma só coisa: jamais serei completo, faltará sempre um fragmento para completar o espelho em que todos os dias perco a minha imagem.








