Abril 2008


Nada melhor que um bom livro ou filme para matar o tédio. Essa semana fiz uma promessa a mim mesmo: ler um livro por semana. Começarei com os menos volumosos, de contos curtos ( não os de Alice Munro que têm mais de 90 páginas cada conto e pra mim são novelas). Depois, em uma atitude mais ousada, passarei a explorar os livros mais volumosos dividindo-os caso sejam excessivamente volumosos. De toda forma, este projeto não tem caráter nenhum de pedantismo nem de obrigação absoluta. É leitura por fruição, sim. E, claro, leitura para aquisição de conhecimento, enriquecimento cultural, que não sou bobo nem nada. A exploração de novas literaturas é algo sempre prazeroso. Comprei um livro de contos mundiais em inglês esta semana. Mato dois coelhos numa cajadada só: melhoro meu inglês e leio literatura universal. A agradável surpresa é que encontrei lá um conto do nosso Machado de Assis – A cartomante. Comecei com os contos Borges e eu, do argentino Jorge Luís Borges e O colar, do francês Guy de Maupassant. São contos envolventes e de trama muito bem entrelaçada. O conto de Borges é uma grande brincadeira com o fazer literário e o de Maupassant parece mais uma peça de moralidades e costumes que tem um fim surpreendente. Agora me aventurarei nos escritos de outros países. Ainda faltam Rússia, Alemanha, Irlanda, Inglaterra, Brasil, Tchecoslováquia, EUA , Itália, Japão e Nigéria. É uma verdadeira volta ao mundo através da literatura. Aguardo com ansiedade os novos livrinhos de literatura irlandesa e russa. Verdadeiramente um projeto ambicioso para matar o tédio.

Em todas as profissões sabemos que há percalços, inevitavelmente. O que me desagrada pensar não é exatamente nas dificuldades que a profissão nos traz em sentido de desafios, de exigir maior conhecimento da área em que se trabalha, de ter uma postura mais técnica ou profissional em relação a isto ou aquilo. Meu desagrado vem do fato de lidar com pessoas que esqueceram que a educação é algo que continua primordial nos dias atuais. E alguns esquecem que nós, professores, em um cargo altamente exigente como este, somos humanos e passíveis de atitudes completamente humanas. Às vezes tenho a impressão ou até mesmo a certeza, de que os nossos educandos acham que somos robôs, que temos um botãozinho programado pra tolerarmos sempre e com bom humor as atrocidades e as barbáries que eles provocam em sala de aula. É um festival de palavrões, de conversas descabidas, indevidas, intolerantes e inaceitáveis. E se corremos o risco de reclamá-los também colocamos em conta o nosso emprego por que uma palavra pode ser avaliada, julgada, atiçada e atirada contra você de maneira indevida e imperdoável. Outra coisa que pouco se leva em conta é que as palavras atiradas de lá não nos ferem aqui, mas qualquer uma que saia daqui atinge e macula o lado de lá. É uma verdadeira faixa de Gaza. Chegamos à era dos professores sem qualquer importância. Essa profissão tão pouco valorizada no país e em todo o mundo, chega a um nível de banalização incomensurável. Temo muito isso tudo, pois sei que todas as profissões passam pelos conhecimentos partilhados com um professor. Penso no fim, na extinção dos profissionais da educação e fico pensando como as outras profissões lidariam com a extinção dessa classe. Essas declarações podem ser julgadas como atitudes de um louco revoltado, mas antes que me atirem pedras prefiro atirar pérolas aos porcos.

Na prosa poética dos traços do destino

nas linhas das mãos

Conduzo a partida

do olhar cigano

em idas

e

sadniv

Seguindo o modelo clariciano de um dos títulos da obra A hora da estrela – .Quanto ao futuro. – resolvi iniciar este post falando das coisas que têm me sufocado indefinidamente por dias a fio, me limitado, me tirado a energia vital. Tenho a impressão quase certeira de que o mundo me cobra demais. São provas, notas, correções, vídeos a gravar, oficinas, livros, leituras a fazer, artigos a escrever, livro pra organizar, congressos pra participar, origamis, provas pra elaborar, médias a fazer… Nem que eu fosse mil daria conta de tanta coisa ao mesmo tempo e aí chega uma hora em que deixamos de ser gente pra sermos/estarmos nessa onda tresloucada da vida exigente da academia transformados em máquina reprodutora de conhecimento. Possivelmente transformados em robôs, máquinas capazes de dar conta de tudo e de todos quando reguladas. Acredito na verdade, estando em desabafo profundo nesse instante, que me desregularam completamente. Onde fica a minha vida pessoal? As minhas conquistas existenciais? Os meus momentos de felicidade a serem divididos com as pessoas que amo? A vida é tão curta, tão frágil pra ser tão inutilmente burocrática e mecânica. A sensação de taquicardia me invade. São tantas atividades cobradas e realizadas ao mesmo tempo que não chego a dormir direito, mal aproveito os feriados pensando nas coisas a fazer, a organizar… Queria poder ao menos ter um dia completamente meu, sem em instante algum me embotar pelas cobranças importunas dessa sociedade capitalista e industrial. Queria que meus estudos tivessem menos teoria e mais sentimento. Que o homem fosse mais humano e menos máquina. Que as pessoas educadamente dessem bom-dia aos outros. Que a frieza não mais habitasse os corações. Que eu pudesse apreciar nas mínimas coisas o sentido pleno da vida. Embora tudo possa parecer piegas, é justamente aí que reside o cerne da saída no fim do túnel.

Uma das coisas mais dolorosas e misteriosas dessa existência é a morte. Discutida e rediscutida por filósofos, questionada pelos cientistas, louvada por poetas, essa constante e certeira inimiga está sempre a nos espreitar e nos levar à frialdade inorgânica da terra, como já dizia Augusto dos Anjos em seus célebres poemas, nos quais a morte se transfigura sob a forma do verme.

Essa semana fui arrebatado pela triste notícia da morte de Tio Antônio. Não tínhamos muito contato, embora morássemos na mesma cidade e em ruas próximas. Era o tipo de pessoa com quem se conversava pouco, mas se sentia enorme satisfação de estar por que você se sentia querido e amado por ele. Impossível não ver seu Antônio e não lembrar de meu avô, irmão de coração dele e também Antônio. Fisicamente muito parecidos, embora diferentes em algumas atitudes. Perder um membro da família é também perder um pouco de nós, temos a sensação de que estamos fragmentados em cada um deles: nos gestos, no olhar, no corpo, nas atitudes… E quando eles se vão morremos um pouco com eles por que traiçoeiramente não sabemos o que nos espera do outro lado, da fonte misteriosa e oculta da morte. Restam-nos as lembranças enquanto a mente ainda nos permitir que elas existam, resta o amor e a saudade dos que ficam e a eternidade tratará de fazê-los ser sempre nossos assim como nós sempre um pouco dos que virão. É o ciclo maravillhoso da vida. Mesmo depois de 10 anos da morte de meu avô ainda lembro dele como se a sua mão me segurasse e me conduzisse pelos caminhos difíceis. É uma força que não sei explicar, mas o sinto sempre perto de mim com a sua atitude calma e consoladora, com a sua palavra sempre confortante. Fico imaginando como é viver com alguém por mais de 50 anos como minha avó e minha tia Dada viveram e depois ter que se despedir dessa pessoa e nunca mais vê-la. Deve ser uma dor incomensurável, terrível, que não gostaria de viver, nem de dar a ninguém e me angustio com isso quando me ponho a refletir sobre essas questões.

Fico pensando que se duas pessoas se amam verdadeiramente a ponto de doarem suas próprias vidas uma em nome da outra, deveriam ser arrebatadas juntamente para que unificados pudessem sentir a transcendência e atravessar os portais do mistério indizível do outro lado da vida. Restam agora as saudades e o conforto que os dias trarão lentamente. Cada objeto usado pela pessoa, cada canto pelo qual ela passou será lembrado, chorado, revisto e amado com idolatria. Lembro-me de minha mãe ter colocado por exatamente um mês o prato do meu avô na mesa acreditando que ele ainda viria almoçar ou jantar conosco. Com o tempo ela percebeu que ele não viria e não mais colocou. Vou terminar esse post por que as lágrimas já não me deixam mais escrever.

Aos Antônios de minha vida minhas saudades eternas e o meu amor incondicional, sempre.

Nas oscilações da existência, quero louvar as desilusões cotidianas, as tantas vezes que tenho sido tentado a tentar inúmeras vezes perfazer os mesmos caminhos – embora sabendo que nunca são os mesmos – e fazer a vida parecer um moinho, uma encenação circular e ritualística. Os deuses me assistem do alto e performaticamente atuo para que as luzes do espetáculo continuem acesas, as tochas, o fogo abrasador permaneça na chama intocável e inebriante dos olhares inertes perante as expressões dos corpos, as formas voluptuosas das indumentárias e o cheiro produzido nesse incensar de sinestesias, de idiossincrasias.

Tomado pela mão imaculada dos que constroem as tortuosas, sinuosas linhas serpenteadas adâmicas lanço-me ao pecado dos frutos comezinhos, das sementes do desejo inopinado dos dias e na incerteza de horas sempre impecáveis e limpas, torno-me mortalmente imortal em um eterno transitar de desilusões triviais e poeticamente profanadas pela boca dos loucos e indesejados poetas.