Ah! Este silêncio cortante que dilacera os dias e jamais alivia a alma, amargo fel perseguidor.
Cacos de vidro jamais serão vaso renovado, haverá sempre remendos na essência.
Palavras fogem, tornam-se elemento efêmero. O que tento registrar já nem significa mais o que sinto. Lembro Clarice, recorro aos livros, procuro em páginas manchadas pelo tempo uma espécie de redenção momentânea nas vozes que ecoam nas manchas negras do papel. Nada me ocorre. Os livros são meus queridos e desejados inimigos mais fiéis.
Há dias tenho corrido por esse labirinto e só consigo enxergar a sombra do Minotauro a me espreitar ao longe e zombar de meus cálculos tolos e vãos em busca da saída. Procuro escalar os muros e vejo ante meus olhos uma imensidão escura de paredes, becos, reentrâncias, ângulos… Ao longe algo me acena em busca de uma resposta para os meus anseios. Respondo-lhe com um muxoxo, um sinal de desagravo. Que ele encontre respostas para os seus próprios anseios antes de escavar as angústias alheias.
Descubro em páginas emprestadas letras que não são minhas. Alguém as invadiu inadvertidamente, rasurou a existência, corrompeu-as com líquidos indesejáveis, escreveu em linhas certas a vida indesejada.
As horas passam e me vejo invadido pela sensação de estar sendo dizimado. O tique-taquear do meu relógio mental avisa diariamente à hora estranha do crepúsculo que meus dias estão contados e uma taquicardia inopinada invade meu peito.
Pequenas ações maculam o que me resta dessas horas. Temores, dissabores, grandes aflições indesejadas, traços de que o cansaço e a falta de fé no ser humano estão cada vez me tirando de mim mesmo.
Quero de volta a sã loucura que me tomaram!
Imagem: Robert and Shana ParkeHarrison

Maio 6, 2009 at 1:58 am
Cortantemente belo!!