Tive uma semana conturbada, cheia de altos e baixos. Semana de projeto de doutorado, de 48 horas insone, de leituras, fracassos pessoais e vitórias interiores. Semana íngreme, de dores, de reflexões. Perdemos Maria, uma amiga de pouco tempo que parecia reinar em nossas vidas há tempos. Um exemplo de vida, de luta, de resistência. Morrera jovem, aos 27 anos, depois de terem lhe dado apenas 5 anos de vida. Não senti estar em um velório. A única sensação que me vinha era a de estar completamente preenchido por um sentimento de saudade absoluta. Ela estava ali, sim, em cada um de nós, viva, absolutamente viva. A menina com seu sorriso, suas bonecas, a garota que mesmo sem cabelos era vaidosa, que usava perfumes e shampoos, que tinha sede de vida e de amar. Não senti o arrepio que outrora sentira quando criança. No sertão acreditávamos que os defuntos vinham nos puxar pelo pé à noite ou que poderiam abrir os olhos quando estavam no caixão…Com ela não houve medo…Houve conforto. Ficamos observando as cruzes no cemitério, no caminho à praia (lugar que ela tanto adorava ir). Calculávamos as idades dos que lá jaziam. Homens e mulheres arrebatados na flor de suas idades. 13, 15 anos. 1 mês de vida. Alguns 80, 90 anos. Na sombra da copa de um jambeiro a menina descansara e ali, repousando sob o perfume das flores e dos frutos, muitos pássaros cantariam pra ela a sua última canção de ninar.

O prazer doloroso do recomeço

Depois de mais de dois anos distante desse blog, excetuando-se um pequeno incidente no ano passado, resolvo retomar em outro endereço os meus relatos cotidianos e literários. Desta feita, resolvi retornar com novo visual e uma nova proposta. Intercalarei aqui meus pensamentos, agregando-os aos textos de forma a fundir criador e criatura, de tal forma que amalgamados se tornem um só… como se na hora do parto, mesmo cortado o cordão umbilical já não pudéssemos mais saber onde um começa e outro termina.

O recomeço é um ato doloroso e impiedoso. É trazer à tona uma série de eventos passados, uni-los ao presente e refazer a história a partir do agora, do já… ou seria do sempre, nunca?

Recomecemos.

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Porque negar que até tu me traíste com a palavra irônica e assoberbada, com o olhar corroído de inveja e ódio ao ocultar que a perda não fazia parte de tua estirpe? Negavas com veemência a chegada de tua hora e te empunhavas de rigidez,ignorância, intolerância crua, rudeza de sentimentos.Defendia-te a ti mesmo. Praguejaste tua própria cria ao cuspir pilhérias de sarcasmo ardente, flamas de impaciência na face daqueles que te alantaram nas horas em que precisavas do sussurro de uma canção de ninar. Ao longe acalentamo-te com palavras de carinho, absorvemo-te em nossos braços calorosos e demo-te a atenção mais desejada quando olhavas o horizonte com o olhar perdido e não encontravas sequer a ti mesmo. Agora em estado petrificado de brutidão, vens tu, Brutus, dar-me a punhalada impiedosa quando acreditava que jamais receberia de ti o beijo caloroso e úmido de Judas. Traíste-me, porque um dia depositei em ti a verdade do que acreditei ser sentimento, porque fizeste-me nutrir por ti o amor circundado por sentimentos benignos, por que em ti enlacei coroas de flores. Tu me deste o fio agudo e cortante do punhal. Acreditava ter plantado e colhido flores, mas descobri que o pólen também é depositado entre espinhos e daí surgiste tu. Em um instante de revolta e dor volto-me a ti para dizer-te que do espinho nasceste e a vida te ensinará que no caminho que trilhas logo aos espinhos voltarás.

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Às vezes sinto que tudo pode me fazer perder o chão, uma palavra por mais simples que pareça pode fazer com que eu tenha a felicidade conquistada a muito custo desmoronar aos meus pés como um se um terremoto tivesse deixado minha existência aos cacos. Debaixo desses destroços eu tento me refazer com a certeza de que o coração já fragmentado não terá mais a felicidade reconquistada, porque de felicidades quebradas eu tenho reconstruído cada instante de vida que me atrevo a ter. De repente, num dia chuvoso como esse, em que uma atmosfera fúnebre parece estar sempre rondando a nossa vida, sinto que a claridade fugaz dos raios de sol parece não ter significado algum. Queria um dia poder alcançar e tocar as mãos do desconhecido, questionar as inconstâncias dos dias e das horas, a errância da existência, por que por mais que existam filosofias jamais haverá respostas pro que nao tem respostas. Como dizer que vim de uma explosâo cosmica se antes da explosão já havia o átomo. Mas como então surgiu o átomo? Só sei que tudo tem um início e um fim, mas qual foi o início de tudo? Será que a nossa existência surgiu de um abismo que jamais se verá o fim? Mas até mesmo o que parece ser infinito tem fim, até mesmo as estrelas, as águas dos oceanos… porque o limite de todas essas coisas está no universo. Mas será que o universo também é infinito? Não tenho respostas pra essas indagaçoes vãs e tolas, só sei que nesse dia inconstante e tenro como o sabor de caramelo descobri que minha vida é tao ou mais insípida que a água, essa substância formada por duas moléculas de hidrogênio e uma de oxigênio. Sei que sou mais de 70% H2O e por isso, como água, líquido vital que sou, me desfaço a todo instante em formas e cores, me agrego, revolto em correntezas, me desfaço pelos caminhos, evaporo a inconstância dos climas e em um instante volto a ser a atmosfera fúnebre das gotículas que caem em chuva e que observo dos esquadros da janela que me leva a um mundo exterior e vazio como o meu.

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São dias sem sentir a escuridão das horas, e quando a chama começa a raiar novamente, a escuridão se aproxima. por que de esperanças e gestos a vida inteiramente se desfez, aprendi a viver do concreto, por que já nem sei se vivo nessa abstração que se chama pulsar a vida. os pensamentos são água, substância pura que escorrem rapidamente e tenho que apanhá-los senão me escapam pelos dedos, eles me habitam e me põem contra mim mesmo, eles dialeticamente sou eu! Pudesse eu viver no silêncio se esse silêncio fosse o vazio e o inócuo, o nada, mas o nada diz mais que qualquer coisa, ele é contrario ao tudo e desse mundo obscuro, de cavernas brilhantes em que me perco sem sequer ver luzes no fim eu procuro uma saída, uma saída breve, um escape… um gesto sorrateiro de confiança Em quem? por que não dizer em mim? Eis que a dolorosa decisao é ter que me encontrar comigo mesmo todos os dias, todas as horas, descobrir que… que não sou. num dia não muito distante aprendi que preciso, como os gregos fazer meu próprio espetáculo, de máscara afivelada ao rosto e daí em diante ser o que sempre quiseram que eu fosse, eternamente usando essa máscara. o sentido da vida é eternamente mascarar-se e um dia assustar-se consigo mesmo ao crer que por trás da máscara sempre houve outra máscara, a de fingir que sempre foi outro e nunca você mesmo. A minha rebeldia, inquietação, me faz desafivelar a máscara todos os dias. vejo através dela um rosto desgastado pelas horas, mas ainda sinto no sujo e fétido material a brancura do gesso, as cores desgastadas que precisam de pintura, é sempre preciso trocar a máscara. Hoje resolvi mascarar-me de mim mesmo. E assustei-me.

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Foram-se os fios e com eles toda a escassa vida que torturava, a falta de brilho, a esperança caída e dupla, a seda espinhosa… e em seu lugar brotam novos frutos de raízes fincadas, firmes, retas e cheias de perspectiva. Um novo mundo se faz à minha cabeça, mundo subterrâneo que expele os bulbos, lança-os à visão de uma nova terra, talvez a prometida, e cresce incontrolavelmente. Entre as surpresas que esta nova sensação me traz, está a a fixação do olhar no espelho e o enfrentamento com um novo ser. O estranhamento dos fios reluzentes é a tentativa de ajuntamento de um mundo que raia jovial e sólido. Farei o ajuntamento dos cacos. Já não há mais lugar para o negro e a falta de esperança. Reconheço no espelho uma nova face, e ela me ofusca, me chama e me conduz a um caminho infinitamente transcendental.