Sessão “Li e recomendo” – “The bear came over the mountain”, de Alice Munro

97800994227471.jpg

A partir de hoje – aproveitando o ócio desse dia nublado e inquietante – começarei a postar opiniões sobre minhas leituras, sejam elas por pura fruição, necessidade acadêmica ou de trabalho.

Nosso post inaugural é o grandioso conto “The bear came over the mountain”, da escritora canadense Alice Munro. Descobri Munro quando iniciei as minhas pesquisas para o doutorado. Em meio a um sem número de autoras possíveis de serem comparadas à autora Clarice Lispector, que já tem lugar cativo em meus estudos acadêmicos, a minha pretensa orientadora indicou-me a canadense.

O conto narra a história de Fiona, uma mulher por volta dos setenta anos, casada com Grant, professor de literaturas nórdica e inglesa, moradora de uma pequena cidade do interior do Canadá. Fiona sofre de uma doença degenerativa da memória e aos poucos começa a esquecer os seus afazeres e as pessoas que fazem parte de sua vida. Com a difícil tarefa de interná-la, mas ao mesmo tempo buscando a cura da esposa, Grant acaba por colocá-la em Meadowlake, uma espécie de internato para tratamento de pessoas com mal de Alzheimer.

Dona de uma narrativa intrigante, bem construída, centrada nos pormenores e, o melhor de tudo, imprevisível, Alice Munro vai construindo sua narrativa através da mudança de focos e passa o conflito inicialmente da esposa, para o marido. Ele passará a contar suas aventuras sexuais, seus casos de infidelidade e seu medo de ser trocado por Aubrey, um paciente por quem Fiona parece completamente apaixonada. A missão de Grant agora é reconquistar a esposa. Se ele conseguirá ou não, deixo a vocês a missão de descobrirem através da leitura do conto, uma leitura prazerosa que nos prende do início ao fim. Aproveitem para ler os outros oito contos que fazem parte do livro “Ódio amizade namoro amor casamento” lançado no Brasil pela Editora Globo e adentrar o universo feminino instigante de outras tantas mulheres tão fascinantes quanto Munro e Fiona.

002692_big.jpg

Para os amantes das adaptações literárias para o cinema, a versão de Sarah Polley para o conto de Munro é uma ótima opção. A jovem diretora canadense concorreu ao oscar de melhor roteiro adaptado traduzindo para as telas de maneira sensível e comovente o conto dando-lhe um novo título e roupagem: Away from her (Longe dela). Uma boa pedida.

Pensando o recomeço…

caminho-de-outono-320-x-240.jpg

Amanheci com a sensação de ter causado algum dano a alguém, talvez pelo fato de ter faltado ao trabalho. Estou com inflamação na garganta e dores no corpo que insistem desde ontem em ficar. Não sei se tenho mais um desses vírus ou fui acometido pela dengue pela milésima vez. Espero que nem um nem outro, que tenha sido apenas um alarme falso do corpo, que vez por outra tem isso. Ando cansado, entediado, vejo as coisas cada vez mais se estreitando, os dias passando, eu lutando cada vez mais e vendo cada vez menos conquistas concretas. Espero que essa luta não dure muito tempo, pois não sei se terei forças para suportá-la. Talvez o recomeço seja uma boa opção. Muitas vezes pensei em largar tudo que fiz até aqui, começar uma vida nova, em um novo lugar, com perspectivas diferentes. Às vezes sair do próprio ninho é necessário. A gente se acomoda muito com a situação pré-configurada, com as bases e esquece de edificar o prédio inteiro. Será que até aqui escolhi as coisas certas? Será que passei pelos caminhos que me conduziriam à felicidade plena? Ou até mesmo: o que seria essa felicidade? Talvez hoje, nesse descanso nada planejado, eu tenha que rever muitos conceitos e, mesmo que não venha a radicalizar, ao menos terei passado pelo caminho da reflexão. Nada mais será igual.

Reminiscências da terra natal

chuva-thumb.jpg

Encontrei perdidos entre os escritos de um caderno algumas coisas que anotei enquanto estive no sertão em fevereiro desse ano. Dizem assim:

Sonhos trágicos possuíram minhas noites insones. Três longas noites de calor e pernilongos insistentes. A chuva do sertão caindo ferozmente no telhado produzia uma melodia agradável aos ouvidos e o cheiro de terra molhada provocava em mim as mais saborosas reminiscências da infância. Dormir sob os lençóis com cheiro de orvalho, ouvir os trovões, perceber os raios entre as frestas do telhado, sentir os grãos de areia caindo sobre o rosto, são sensações que não temos longe do sertão.

Aqui tudo parece ter um valor inestimável e único, mesmo as dores mais individuais tornam-se dores coletivas. A família unida à mesa, as águas correndo nas barragens e rios, os risos, as lembranças, a alegria vivida, sentida, alcançada… momentos que ficarão eternamente guardados em mim, ainda que o tempo insista em apagá-los de minha memória.

Um estranho no ninho

paisagem.jpg

Vez por outra cobre-me a sensação de ser um estranho no ninho. Aquele estranhamento comigo e com o mundo, uma espécie de deslocamento, como se eu fosse um autista, vivendo em meu próprio universo. Um mundo que construí forçosamente ou involuntariamente pra mim mesmo e do qual os outros não fazem parte, a não ser como elementos desencadeadores desses instantes por vezes indesejados, desse esdrúxulo sentimento. Vou elencando aos poucos os meus gostos e comportamentos, e vendo que as minhas leituras, a minha ótica das coisas em ver que há mais filosofia em tudo do que os outros percebem, tudo isso me distancia daquilo que eu denominaria “massa de pensamentos unilaterais”. As pessoas se resumem a um lado ou seguem o pensamento das multidões, se envolvendo na enredada trama dos ditames e das tendências.

Eu vou seguindo o que me vem inesperadamente, o que me cai às mãos, às vezes sem escolha, sem medo, sem ansiedade, sem ausência ou presença. Eu sigo o que me vem perfilado, frente a frente comigo, desfilando como versos melódicos à procura de estrofes pra se enfileirarem numa poesia toda. Vou montando meus paradoxos, construindo minhas metáforas, sentindo-me ora sinestesia ora catacrese, distribuindo-me entre aliterações e assonâncias.

Vejo o vórtice do verso velado velando o vulto do vago viajor.

Ouço meus passos seguindo na estrada das palavras.