Projeto para matar o tédio

Nada melhor que um bom livro ou filme para matar o tédio. Essa semana fiz uma promessa a mim mesmo: ler um livro por semana. Começarei com os menos volumosos, de contos curtos ( não os de Alice Munro que têm mais de 90 páginas cada conto e pra mim são novelas). Depois, em uma atitude mais ousada, passarei a explorar os livros mais volumosos dividindo-os caso sejam excessivamente volumosos. De toda forma, este projeto não tem caráter nenhum de pedantismo nem de obrigação absoluta. É leitura por fruição, sim. E, claro, leitura para aquisição de conhecimento, enriquecimento cultural, que não sou bobo nem nada. A exploração de novas literaturas é algo sempre prazeroso. Comprei um livro de contos mundiais em inglês esta semana. Mato dois coelhos numa cajadada só: melhoro meu inglês e leio literatura universal. A agradável surpresa é que encontrei lá um conto do nosso Machado de Assis – A cartomante. Comecei com os contos Borges e eu, do argentino Jorge Luís Borges e O colar, do francês Guy de Maupassant. São contos envolventes e de trama muito bem entrelaçada. O conto de Borges é uma grande brincadeira com o fazer literário e o de Maupassant parece mais uma peça de moralidades e costumes que tem um fim surpreendente. Agora me aventurarei nos escritos de outros países. Ainda faltam Rússia, Alemanha, Irlanda, Inglaterra, Brasil, Tchecoslováquia, EUA , Itália, Japão e Nigéria. É uma verdadeira volta ao mundo através da literatura. Aguardo com ansiedade os novos livrinhos de literatura irlandesa e russa. Verdadeiramente um projeto ambicioso para matar o tédio.

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A angústia de ser professor nos dias atuais

Em todas as profissões sabemos que há percalços, inevitavelmente. O que me desagrada pensar não é exatamente nas dificuldades que a profissão nos traz em sentido de desafios, de exigir maior conhecimento da área em que se trabalha, de ter uma postura mais técnica ou profissional em relação a isto ou aquilo. Meu desagrado vem do fato de lidar com pessoas que esqueceram que a educação é algo que continua primordial nos dias atuais. E alguns esquecem que nós, professores, em um cargo altamente exigente como este, somos humanos e passíveis de atitudes completamente humanas. Às vezes tenho a impressão ou até mesmo a certeza, de que os nossos educandos acham que somos robôs, que temos um botãozinho programado pra tolerarmos sempre e com bom humor as atrocidades e as barbáries que eles provocam em sala de aula. É um festival de palavrões, de conversas descabidas, indevidas, intolerantes e inaceitáveis. E se corremos o risco de reclamá-los também colocamos em conta o nosso emprego por que uma palavra pode ser avaliada, julgada, atiçada e atirada contra você de maneira indevida e imperdoável. Outra coisa que pouco se leva em conta é que as palavras atiradas de lá não nos ferem aqui, mas qualquer uma que saia daqui atinge e macula o lado de lá. É uma verdadeira faixa de Gaza. Chegamos à era dos professores sem qualquer importância. Essa profissão tão pouco valorizada no país e em todo o mundo, chega a um nível de banalização incomensurável. Temo muito isso tudo, pois sei que todas as profissões passam pelos conhecimentos partilhados com um professor. Penso no fim, na extinção dos profissionais da educação e fico pensando como as outras profissões lidariam com a extinção dessa classe. Essas declarações podem ser julgadas como atitudes de um louco revoltado, mas antes que me atirem pedras prefiro atirar pérolas aos porcos.

.Quando a taquicardia invade a vida dos seres.

Seguindo o modelo clariciano de um dos títulos da obra A hora da estrela – .Quanto ao futuro. – resolvi iniciar este post falando das coisas que têm me sufocado indefinidamente por dias a fio, me limitado, me tirado a energia vital. Tenho a impressão quase certeira de que o mundo me cobra demais. São provas, notas, correções, vídeos a gravar, oficinas, livros, leituras a fazer, artigos a escrever, livro pra organizar, congressos pra participar, origamis, provas pra elaborar, médias a fazer… Nem que eu fosse mil daria conta de tanta coisa ao mesmo tempo e aí chega uma hora em que deixamos de ser gente pra sermos/estarmos nessa onda tresloucada da vida exigente da academia transformados em máquina reprodutora de conhecimento. Possivelmente transformados em robôs, máquinas capazes de dar conta de tudo e de todos quando reguladas. Acredito na verdade, estando em desabafo profundo nesse instante, que me desregularam completamente. Onde fica a minha vida pessoal? As minhas conquistas existenciais? Os meus momentos de felicidade a serem divididos com as pessoas que amo? A vida é tão curta, tão frágil pra ser tão inutilmente burocrática e mecânica. A sensação de taquicardia me invade. São tantas atividades cobradas e realizadas ao mesmo tempo que não chego a dormir direito, mal aproveito os feriados pensando nas coisas a fazer, a organizar… Queria poder ao menos ter um dia completamente meu, sem em instante algum me embotar pelas cobranças importunas dessa sociedade capitalista e industrial. Queria que meus estudos tivessem menos teoria e mais sentimento. Que o homem fosse mais humano e menos máquina. Que as pessoas educadamente dessem bom-dia aos outros. Que a frieza não mais habitasse os corações. Que eu pudesse apreciar nas mínimas coisas o sentido pleno da vida. Embora tudo possa parecer piegas, é justamente aí que reside o cerne da saída no fim do túnel.

É preciso aprender a aceitar o indizível…

Uma das coisas mais dolorosas e misteriosas dessa existência é a morte. Discutida e rediscutida por filósofos, questionada pelos cientistas, louvada por poetas, essa constante e certeira inimiga está sempre a nos espreitar e nos levar à frialdade inorgânica da terra, como já dizia Augusto dos Anjos em seus célebres poemas, nos quais a morte se transfigura sob a forma do verme.

Essa semana fui arrebatado pela triste notícia da morte de Tio Antônio. Não tínhamos muito contato, embora morássemos na mesma cidade e em ruas próximas. Era o tipo de pessoa com quem se conversava pouco, mas se sentia enorme satisfação de estar por que você se sentia querido e amado por ele. Impossível não ver seu Antônio e não lembrar de meu avô, irmão de coração dele e também Antônio. Fisicamente muito parecidos, embora diferentes em algumas atitudes. Perder um membro da família é também perder um pouco de nós, temos a sensação de que estamos fragmentados em cada um deles: nos gestos, no olhar, no corpo, nas atitudes… E quando eles se vão morremos um pouco com eles por que traiçoeiramente não sabemos o que nos espera do outro lado, da fonte misteriosa e oculta da morte. Restam-nos as lembranças enquanto a mente ainda nos permitir que elas existam, resta o amor e a saudade dos que ficam e a eternidade tratará de fazê-los ser sempre nossos assim como nós sempre um pouco dos que virão. É o ciclo maravillhoso da vida. Mesmo depois de 10 anos da morte de meu avô ainda lembro dele como se a sua mão me segurasse e me conduzisse pelos caminhos difíceis. É uma força que não sei explicar, mas o sinto sempre perto de mim com a sua atitude calma e consoladora, com a sua palavra sempre confortante. Fico imaginando como é viver com alguém por mais de 50 anos como minha avó e minha tia Dada viveram e depois ter que se despedir dessa pessoa e nunca mais vê-la. Deve ser uma dor incomensurável, terrível, que não gostaria de viver, nem de dar a ninguém e me angustio com isso quando me ponho a refletir sobre essas questões.

Fico pensando que se duas pessoas se amam verdadeiramente a ponto de doarem suas próprias vidas uma em nome da outra, deveriam ser arrebatadas juntamente para que unificados pudessem sentir a transcendência e atravessar os portais do mistério indizível do outro lado da vida. Restam agora as saudades e o conforto que os dias trarão lentamente. Cada objeto usado pela pessoa, cada canto pelo qual ela passou será lembrado, chorado, revisto e amado com idolatria. Lembro-me de minha mãe ter colocado por exatamente um mês o prato do meu avô na mesa acreditando que ele ainda viria almoçar ou jantar conosco. Com o tempo ela percebeu que ele não viria e não mais colocou. Vou terminar esse post por que as lágrimas já não me deixam mais escrever.

Aos Antônios de minha vida minhas saudades eternas e o meu amor incondicional, sempre.

Que da planta das desilusões brotem rosas e espinhos

Nas oscilações da existência, quero louvar as desilusões cotidianas, as tantas vezes que tenho sido tentado a tentar inúmeras vezes perfazer os mesmos caminhos – embora sabendo que nunca são os mesmos – e fazer a vida parecer um moinho, uma encenação circular e ritualística. Os deuses me assistem do alto e performaticamente atuo para que as luzes do espetáculo continuem acesas, as tochas, o fogo abrasador permaneça na chama intocável e inebriante dos olhares inertes perante as expressões dos corpos, as formas voluptuosas das indumentárias e o cheiro produzido nesse incensar de sinestesias, de idiossincrasias.

Tomado pela mão imaculada dos que constroem as tortuosas, sinuosas linhas serpenteadas adâmicas lanço-me ao pecado dos frutos comezinhos, das sementes do desejo inopinado dos dias e na incerteza de horas sempre impecáveis e limpas, torno-me mortalmente imortal em um eterno transitar de desilusões triviais e poeticamente profanadas pela boca dos loucos e indesejados poetas.