Silencie a alma, ouviste? Antes que os carrascos, os ditadores e as armas empunhadas te atravessem e dilacerem o coração que ainda pulsa nesse corpo ferido, carcomido pelos grãos do tempo. Silencie, antes que as masmorras sejam preparadas e ouças a adaga de Brutus fazer espirrar em jorros o líquido que te serpenteia as veias. Silencie, antes que o choro calmo e profundo te encarcere nos dias dos campos de concentração. Silencie, antes que seja preciso deparar-se com a traição e marcar um encontro infeliz e lento com ela, antes que aqueles que julgaste filhos te concedam a corda da forca de Judas, antes que Salomé peça a tua cabeça em dança sinuosa, antes que sejas afogado com pedras nos bolsos, antes de seres crucificado e perseguido pelas multidões, antes que te reneguem, te praguejem, te apedrejem, te julguem louco e infeliz… Mas se tu não podes silenciar, então usa a palavra como tua tábua de salvação, mesmo que na língua dos loucos ela seja tua sentença de condenação.

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O incontrolável desejo de burlar o tempo

O despertador toca às 5 da manhã anunciando a hora de ir para o trabalho.
Soneca: mais 5 minutos que passam como se fossem 1. Hora do café cada vez mais curta. O ônibus demora demais pra chegar. Nossa como o tempo do trabalho demora pra passar!!! Meu tempo com a família está cada vez mais curto. O prazo para envio do trabalho está acabando. Meu Deus! Já cheguei aos 29!!! O trabalho ligou pedindo as provas dos alunos para amanhã. Tenho que concluir uma tradução. E o meu Capitães de Areia? E eu? Onde fico nessa história?

Percebo que em tudo quanto fazemos está lá o incontrolável e dominador tempo. Ah! Como desejaria burlá-lo, segurar os ponteiros da vida, mudar a rotação e a translação em caminhos inversos, fazer dia ser noite e noite, dia a fim de dar ao curso da vida um caminho diferente desse que nos controla e angustia!

Ando em débito com este espaço virtual e só agora venho perceber que passaram-se 3 meses sem que eu desse qualquer sinal de vida por aqui. Muita coisa mudou nesse período. Um tempo de saudades, conquistas, amizades consolidadas, crescimento profissional e grandes lições de vida, se foi. Uma temporada de 2 anos na UEPB de Guarabira me fez ver a realidade com outros olhos, repensar certas atitudes, investir em mim e nos outros, participar da vida acadêmica mais intensamente. Também nesse período conquistei a aprovação no concurso da UFCG depois de um árduo e intenso período de estudos, extendidos pelas madrugadas dos poucos dias que me restavam para a prova. Entre muitos candidatos, fui premiado por Deus com a chance de ter novas possibilidades na minha profissão. Depois de humilhações e terrores psicológicos sofridos nos trabalhos por onde passei ao longo de 11 anos de profissão, mal entendido por desinformados das metodologias que aplico às aulas, amado e odiado por alguns alunos, finalmente vejo uma luz no fim do túnel, a abertura para a realização de um trabalho mais inovador, no qual eu possa ter o real valor pelas coisas que executo, um trabalho que me proporcione reciprocidade, debates, discussões, no qual eu não realize um monólogo.

Aliada a essa conquista vem a espera da nomeação, a parte burocrática, a ansiedade, o tempo que passa e as coisas que não se resolvem… ter que reassumir o que já considerava extinto da minha vida, perder coisas que já havia planejado nesse período intermediário. Angustia ver que determinadas decisões não estão ao nosso alcance, não podem ser realizadas por nós. Nestes momentos, o tempo retarda ainda mais o seu trabalho e os dias parecem se tranformar em anos. Creio que a tão desejada hora se aproxima e ainda que eu tente burlar o tempo, incontrolavelmente, ele ultrapassa os limites do indizível e  me torna seu prisioneiro.