Mudar quando é fácil ceder…

Semana das mais agitadas. Nomeação seguida de mil documentos a organizar, viagem, posse… sonho concretizado parcialmente…Vida nova. Confesso que esta mudança tem me causado um certo estranhamento. Hoje fiz uma espécie de retrospectiva. Em meio a tantos papéis inúteis guardados, a contas vencidas, vão-se os retratos que o tempo marcou em números, datas que permanecem, que nos remetem a lembranças muitas vezes agradáveis ou não. Remexer o passado incomoda de alguma forma, para não dizer muito. Há 5 anos iniciei uma história neste lugar, uma história que viria a me fortalecer como profissional e ser humano. Sinto que o dever e os objetivos foram cumpridos, que esta volta ao ventre materno, ao meu tão amado sertão, a esta terra que mantém em mim raízes, era mais que sem tempo. Precisava respirar de novo o cheiro da terra molhada pela chuva, ver as cores do crepúsculo no fim da tarde, o canto dos pássaros em revoada nas árvores no começo e no fim do dia, o abraço amigo, o aconchego, o carinho dos familiares. Necessitava andar descalço ao meio-dia na terra quente, beber água de pote, tomar banho de açude, comer angu, pirão de peixe, rubacão, rapadura, alfenim… Sentir o sabor da terra, da bênção dos mais velhos, do tratamento simples do bom-dia, de poder dizer e sentir em presença, em corpo e alma a presença da família.

Toda essa nostalgia não anula os bons amigos, as pessoas verdadeiras, companheiras, que se preocuparam comigo, que partilharam angústias, anseios, alegrias, realizações, conquistas… Foi um tempo importante, engrandecedor. Talvez por isso a palavra “ADEUS” não seja a mais adequada, porque todas essas pessoas, essa minha segunda terra, permanecerão em mim. Àqueles que foram muito importantes nessa caminhada – e não me cabe aqui citar um nome, uma vez que foram muitas pessoas – tenho a agradecer imensamente por cada palavra, gesto, compreensão, por ter me tolerado nas inconstâncias, nos medos, nas dúvidas… pela mão amiga e pelo ouvido e olhar sempre pacientes. Parto com a certeza de que também deixei aqui um pouco de mim. Aos meus queridos alunos do Colégio Interactivo, de quem ganhei duas festas maravilhosas de despedida, o meu mais profundo agradecimento pela partilha, pelo carinho, confiança no meu trabalho, por nossas brigas e conquistas juntos. Deixo João Pessoa rumo a uma nova vida, com a certeza de dever cumprido e o coração ainda choroso. Que o sertão mais uma vez nos receba de braços abertos e que o investimento de toda uma vida seja contemplado com os louros da vitória.

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Paradoxos do ser

Não, não sou nenhum revolucionário. Não participei de movimentos comunistas, passeatas contra o regime capitalista e opressor. Não derrubei muros, não atirei, não flechei, não usei cataputas ou canhões. Também não fumo, não sou adepto do uso de álcool ou drogas e como pouquíssimos mortais não dirijo. Mesmo morando no nordeste não curto forró, tampouco brega. Não leio best-sellers, não gosto de Paulo Coelho, não assisto aos filmes que a mídia exalta, não uso a roupa da última moda. Em suma você diria que sou um chato ou um ser aquém das coisas do mundo. Eu diria que não. Diria que não vou com as multidões, que invés de Paulo Coelho leio Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Drummond, Adélia Prado, Fernando Pessoa… E sim, me sinto um estranho, um espécie de homem-ilha sem arquipélago, como bem disse Mário Benedetti em seu conto Nuvens de verão, porque posso dividir com poucos como eu o que leio e reflito. Mas me satisfaço com tudo isso, mesmo com essa solidão humanamente previsível, tanto que estou em plena madrugada estudando William Bradford e seus escritos sobre os puritanos dos Estados Unidos colonial. Aqui estou na leitura do Plymouth plantation, dos escritos de Jonathan Edwards e seu Sinners in the hands of an angry God, do Captain John Smith e sua lenda de Pocahontas. Sim, estou estudando sobre a colonização dos Estados Unidos. Para um professor de literatura gastar as madrugadas com textos envolventes é bem mais interessante que perder noites de sono em shows de forró ou ao lado de um carro de som tocando Calypso. Aqui, na literatura, estão as minhas revoluções, meus mundos subvertidos. Como diria Rodrigo S.M. em sua primeira frase de A hora da estrela: Tudo no mundo começou com um sim. Eu dou o meu sim à literatura e um mundo encantador, fascinante se faz diante dos meus olhos, como num toque de mágicas. Às vezes é melhor habitar esse mundo que se deixar levar pelos caminhos tortuosos da nossa realidade. Sim!

Nuvens de verão

Embora minha vida seja notoriamente breve, devo admitir que encerra alguns enigmas. Não só para os outros, mas também, e principalmente, para mim mesmo. Por exemplo: de onde ou de quem foi que eu tirei minha indiferença diante dos seres e das coisas? Às vezes eu me sinto como uma ilha, mas ainda assim me falta o arquipélago. Vejo o mundo através de um biombo, não esmerilhado, mas transparente. Quer dizer: fico sabendo de tudo, mas não participo de nada.

Mário Benedetti

Guy de Maupassant, Machado de Assis e Cinema Brasileiro

Tenho me lançado em muitas leituras nos últimos dias e visto filmes como nunca. É a descoberta das leituras e filmes nunca vistos. O cinema brasileiro tem se revelado de grande qualidade para mim. Precisamos romper com essa hegemonia do cinema hollywoodiano. Aqui também se faz bom filme, com elenco de qualidade e ótimo enredo. Amarelo manga, O ano em quem meus pais sairam de férias, Abril despedaçado, Baixio das bestas, O homem que copiava, Quanto vale ou é por quilo, Anjos do sol são apenas alguns títulos que nos brindam com esse despertar do cinema nacional.

Em relação às leituras, pela segunda vez tenho contato com contos de Guy de Maupassant. Quem acompanha esse blog deve ter lido há alguns meses que eu apreciei imensamente a leitura do conto O colar de diamantes. Agora Maupassant me brinda com As tumulares. O autor realista sabe fazer com sagacidade uma análise da sociedade francesa de seu tempo, a partir de um olhar minucioso… A narrativa é envolvente e conduz o leitor a vorazmente adentrar a alma das personagens. Acho que a minha paixão pelos autores realistas está se tornando mais e mais forte esses dias.

Além de Maupassant, tenho me dedicado à leitura de Quincas Borba, o astucioso personagem da obra homônima de Machado de Assis. No centenário de morte do autor, nada melhor que se presentear com a leitura sarcástica da filosofia do Humanitismo de Quincas Borba, com os trocadilhos, o cão e  o homem Quincas, o paradoxal destino de Rubião dividido entre seu mundo anterior e a riqueza conquistada. Capitalismo x caráter. O humor fino, o sarcasmo ácido, o olhar profundo sobre as relações humanas, os interesses que levam o homem a cometer seus “pecados capitais”, o desvendamento da sociedade do Rio de Janeiro do século XIX representados no campo diegético fazem de Machado o maior nome das nossa letras. Ler Machado é sempre enriquecedor.

Setembro, o que poderia parecer para mim o raiar de uma primavera florida, perfumada, renovada, é a continuidade de uma carga de ansiedade sintomática que vou disseminando a todos que me cercam.

Os dias passam, essa estranha se enraiza em mim e toma proporções inimagináveis. Tenho que tomar um rumo diferente nas atividades. Talvez voltar a escrever mais, a povoar novos mundos com personagens e finalmente me lançar no desafio de escrever o tão solicitado livro que meus amigos dizem que devo escrever. Não acredito ter talento para escrever ficção, acho que o que escrevo às vezes é hermético demais ou superficial em demasia.

Talvez ler mais, me apegar a heróinas e heróis e com eles viajar por terras desconhecidas, fugir dos vilões, conquistar, perder, ousar… Talvez precise viver sensações que nunca vivi ou não tentar entender por que teria que vivê-las ou experimentá-las. Parafraseando Caeiro: a única certeza das coisas é que elas existem e só.

Depois de ter decidido precipitadamente me afastar dos trabalhos que conquistei ao longo desses 5 anos em João Pessoa, alguns dos quais permaneci por mais de 2 anos, tenho uma sensação de vazio, como se o jardim tivesse fenecido. A minha primavera começa murcha. Sinto como se tivesse voltado ao zero, como se precisasse recomeçar a existência daqui. A nova fase ainda não se concretizou burocraticamente – não passa de promessas – e essa demora me angustia, me faz acreditar e pensar em coisas absurdas, aterrorizantes. Diariamente preciso me desarmar dos próprios questionamentos, silenciar, ter que suplicar em telefonemas uma certa urgência dos fatos que deveriam naturalmente se concretizar, consultar sites… uma sensação de impotência, de nulidade, de invalidez me corrói, me impede de crer em mim mesmo como força transformadora.

Para agilizar os fatos possíveis hoje me submeti a exames. Toda vez que vou ao médico tenho a sensação da mácula sobre o corpo, da chaga, da doença, da ferida, do sintoma… É como se meu corpo fosse infectado simplesmente por estar ali naquele lugar. Depois vem a agressiva e primitiva forma com que colhem o nosso sangue. A seringa sanguessuga colhe o líquido avermelhado e em borbulhas vejo matizes de vermelho sob os raios da sala. Rubros, carmins, vivos, escarlates, fogo…O algodão branco umedecido em líquido entorpecente cobre a pele dilacerada, invadida, chorosa em lágrimas avermelhadas e impede a escapada do líquido que teima em procurar o caminho da liberdade. Terminada a fase virão outras invasões do corpo acusadas em máquinas de raio X.

Adoraria que me tirassem uma fotografia da alma.