Novas sementes lançadas. Novo chão. É preciso semear os frutos vindouros.

Hora de colocar os pés no chão, abrir os olhos, beliscar-se e crer que não é mais sonho! Hora de ação, de renovação, de novo ar, novas caras, de uma saudade gostosa dos amigos que ficaram e que estão sempre acenando boas novas. Hora de rever familiares, de sentir a terra nova enraizando. Hora de semear frutos, lançar sementes ao solo fértil.

Eis a vida nova se fazendo em nós. Um caminho um tanto conturbado até aqui. Gastar muito dinheiro com mudança, trazer nossas gatinhas conosco (Medéia e Circe (que pra completar estava prenha)), ficar um pouco dependendo dos outros nos primeiros dias, tanto solicitando local pra dormir quanto para refeições. E o pior de tudo: procurar casa. Foram 3 longos dias sob um sol escaldante. Aqui o segredo é viver tomando líquido a cada 2 segundos. É um verdadeiro deserto. Nunca vi o sertão tão quente! Ou será que esses 5 anos fora me desacostumaram do nosso clima? Para completar essa via-crucis os preços dos aluguéis aqui estão pela hora da morte. Acho que as pessoas perderam a noção de que não estamos na capital e sim no interior. Enfim, a casa foi paixão à primeira vista. Clara, arejada, organizada, linda! A casinha dos sonhos. Ainda desorganizada pela mudança tardia. Aos poucos vamos encontrando nosso rumo.

Circe ganhou três lindos bebês: uma gata e dois gatinhos. Está magrinha por que vive amamentando os filhotes. Todos os dias, sob o pé da escada onde colocamos a caixinha, vou visitá-la várias vezes, faço carinhos, vejo os filhotes com lindos pezinhos e focinho rosados, ainda de olhos fechados. Circe faz carinho, roça a face sobre a minha mão solicitando ternurinhas, grunhe e me olha com um olhar de quem solicita a minha presença continuamente. Medéia está deprimida pela perda da amiguinha de travessuras. Anda triste pelos cantos da casa, quer se esconder no guarda-roupa a todo instante, vive por detrás das caixas ou na varanda da casa, sempre distante. Tentamos animá-la com brincadeirinhas, bolinhas de papel, carinhos constantes, mas é visível no seu olhar que ela está solitária, sentindo falta da mãe-amiga que é Circe. Incrível como os bichos conseguem passar esse sentimento pelo olhar. Leio a alma deles e me sinto profundamente tocado. Medéia sequer se aproxima de Circe, parece sentir que ela vive os cuidados de outros filhotes e sente-se enciumada. Circe fica no térreo, Medéia no primeiro andar da casa. Parecem agora viver em mundos distantes, como duas estranhas que se conheceram e ainda guardam na alma a memória de um amor antigo.

Aos poucos vou me desvencilhando da literatura que está em minhas veias para dar lugar aos estudos sobre linguagem. É um mundo que antes considerava insípido, desagradável, pelo qual tinha pouco ou nenhum interesse, mas que, confesso, tem aos poucos me dado certo prazer em pesquisar. Vou lentamente analisando, percebendo as nuances, desvendando esse mundo… Sobra-me um tempo razoável para ler, estudar, pensar em outros projetos, mas ainda não consegui reorganizar a vida a ponto de aproveitar esses dias. Tudo que quero é dormir, descansar… Parece que acumulei por anos essa vontade, esse desejo de ter algo solidamente meu, de ver um conceito, uma abstração se tornar realidade. E quando esse momento chegou eu me encontrava cansado de buscá-lo. Agora vou procurar forças, me reativar para dar continuidade ao caminho que ora se inicia. Percebo, também, que o mundo acadêmico tem entraves, situações comezinhas que só o backstage me dá a possibilidade de ver. Às vezes é preciso fazer ouvido de mercador, bancar o cego e mudo para se safar de certas situações. É preciso discrição e isenção. Cada passo é um pedaço de chão conquistado, uma bomba desativada nesse campo minado. É preciso ter a prudência dos sábios e ousar conter nos lábios o sorriso e a paixão para que novos campos floresçam. Do contrário, as flores murcharão antes de aparecidas.

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