Inveja: o mal que corrói

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É incrível como algumas pessoas não se dão conta do ridículo de invadir as nossas vidas com suas palavras vis, pouco desejáveis, intrusas e insuportavelmente mal-educadas. Elas nos julgam soberbos, altivos, simplesmente por que mostramos para elas as nossas conquistas, nossas vitórias alcançadas com muito esforço, muita busca e sacrifício. Essas pessoas me cansam, porque a inveja desfaçada, a pouca credibilidade que têm, o olho gordo no que é alheio, a mesquinhez, não são atitudes que me comprazem. Estas criaturas me causam dó, porque são interiormente fracas, pequenas, vulneráveis, volúveis, as chamadas Maria-vai-com-as-outras que um dia irão se ferrar pelo simples motivo de nunca fazerem nada de autêntico, de sempre quererem se apoiar nos outros, de tentarem parecer o que nunca se esforçaram para ser. O ser humano certas horas me deixa exausto e incrédulo. Por isso, prefiro devotar muitas vezes o meu precioso tempo aos bichos (por sinal, Circe apareceu no mesmo dia em que desapareceu!). Estes me parecem mais sinceros e menos invejosos.

The Believers, de Zoë Heller – até que ponto defender as próprias crenças vale a pena?

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O romance The believers de Zoë Heller, é meu segundo livro do B&N Book Club. O primeiro, Songs for the missing, de Stewart O’Nan não teve sua leitura concluída pelo fato de as discussões no fórum terem caído exatamente no período em que iniciei os estudos para o concurso da UFCG. O livro está guardado para o momento mais oportuno de leitura, quando puder dedicar mais cuidado e atenção em virtude do vocabulário um tanto rebuscado. O que me impressiona no Book Club é exatamente o cuidado que eles têm em enviar os livros (antes de serem lançados) a leitores do mundo todo. Os exemplares chegam a nossa casa gratuitamente, super bem embalados, com direito a carta do editor e do próprio autor, uma atitude que não sei se funcionaria no 3º mundo. Todo esse esforço é para divulgar as discussões que são abertas em um fórum onde são discutidos elementos da narrativa, tais como: personagens e sua relevância na obra, implicações do tema na contrução do campo diegético, narrador… As discussões geralmente duram de 3 a 4 semanas. Infelizmente, ainda não me senti à vontade para escrever nada sobre o livro no fórum, mas como a minha leitura anda um tanto avançada esses dias (estou por volta da página 135) acredito que logo me sentirei mais livre para debater sobre aspectos relevantes.

The Believers (algo como Os crédulos), como o próprio título nos demonstra, fala de crenças. Um casal se conhece por volta dos anos 60 em Londres (vemos isso no prólogo) e logo somos reportados na primeira parte a 40 anos depois desse encontro quando Audrey e Joel já estão casados e têm constituído uma família de 3 filhos: Rosa, Karla e Lenny, filho adotivo. Audrey e Joel são ativistas de causas sociais e politicamente enveredaram pelo socialismo. Ele, um advogado defensor de minorias, principalmente de questões étnicas, um homem aparentemente equilibrado, harmonioso e bastante persuasivo quando o assunto são suas próprias crenças e interesses . Ela, uma mulher sarcástica, dona de uma língua feroz, ácida, capaz de derrubar como um turbilhão tudo que lhe aparecer tomando o caminho. A espinha dorsal da história começa com um derrame de Joel enquanto ele defendia um cliente acusado de terrorismo após o ataque às Torres Gêmeas em 2001. Aliás, a história se passa exatamente um ano depois dos ataques de 11 de setembro e questiona muitos conceitos do chamado “sonho americano” e de como as pessoas vivem aprisionadas em seus próprios preconceitos sem profundamente se darem conta das destruições que um simples pensamento poderia acarretar no mundo (lembro-me aqui de Efeito Borboleta), de como prejudicamos o outro sem nos darmos conta dessas catátrofes ou como damos continuidade a crenças sem sequer indagarmos qualquer coisa a respeito delas.

Após o derrame de Joel a família inteira passa por conflitos e o que vemos nos capítulos seguintes é um verdadeiro desenrolar de dramas individuais aliados ao drama familiar. Cada filho tem seu próprio conflito: Karla em luta constante para perder o peso e engravidar, Rosa com suas inclinações ao Judaísmo numa família de ateus e Lenny na sua eterna luta para não voltar ao mundo das drogas, da violência, das clínicas de reabilitação, dos traumas vividos na infância por ter sido abandonado pela mãe presidiária. O que mais me impressiona na obra de Zoë Heller é a maneira como a autora oscila entre o apego e o ódio que temos de algumas personagens em virtude da defesa de suas próprias crenças. Todos estão constantemente lutando por defender aquilo que piamente crêem ser o melhor para suas vidas. E ao serem crédulos naquilo pelo qual lutam, acabam ferindo a crença do “outro”. Soa mais que humano e real. É nesses instantes que sinto a obra da autora como se fosse o desfilar da vida diante de nossos olhos.  O romance é de leitura agradabilíssima, mais que recomendável. Não tenho idéia de quando deve chegar ao Brasil, acredito que deva demorar um pouco o processo de tradução, mas pela temática bastante polêmica pode ser que logo, logo o romance esteja figurando nas nossas prateleiras. Até lá já terei degustado a minha cópia da Barnes&Nobles.

Por uma política mais justa de incentivo à cultura

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Estou com o terrível vício de baixar arquivos na internet. E isso com uma conexão à rádio limitadíssima que não passa de 100kbps. Imaginem se eu tivesse uma internet de 1mega ou mais. Seriam dias de glória diante de séries que não posso ver ou comprar. As séries estrangeiras chegam ao Brasil incrivelmente caras e as que são produzidas aqui são tão caras quanto. Aquelas que são a crista da onda como Heroes, Lost, 24 horas, Supernatural, Desperate Housewives não chegam por menos de 70 reais a temporada. Para os brasileiros que vivem com um salário de 400 e uma merrequinha (é tão pouco que até esqueci quanto está o salário mínimo!) comprar uma série dessas é o mesmo que deixar de comer durante o mês ou atrasar a conta de água ou de luz. O mesmo probleminha de valores ocorre com os livros, que aparecem quase sempre em papéis de primeira e edições luxuosas. Pagamos pelo visual e não pelo interior, o livro propriamente dito.

Em países mais desenvolvidos há leis de incentivo bem mais atraentes e as editoras produzem os livros que conhecemos como paperback (aquelas edições geralmente de bolso com papel jornal mais amarelado) como uma forma de levar ao público as obras clássicas de seu país. Assim, encontram-se livros em shoppings, supermercados, padarias, bancas de revistas e até mesmo em maquininhas na rua e todos por um preço absurdamente barato. Alguns chegam a custar praticamente o preço de um cafezinho por lá: cerca de 3 dólares. Incrivelmente, tenho me dado ao luxo de comprar esses livros aqui no Brasil. São edições em língua inglesa com clássicos como os contos de Katherine Mansfield. A obra inteira de contos da autora não me custou nem 10 reais. Outro livro que me deixa abismado quando comparamos o preço com as edições do Brasil é Os irmãos Karamazov, de Dostoiévski. Em português, uma edição não sai por menos de 45,00 e algumas chegam a absurdos 60,00. Em inglês (pasmem!) o livro custa 2 dólares. Como nem todos têm o privilégio de ler em uma segunda língua as coisas complicam um pouco.

Talvez, se tivéssemos uma política mais justa de incentivos à cultura e a diminuição de impostos para produtos como livros e dvds certamente teríamos mais leitores e espectadores. Mas sabemos que por trás de tudo isso se esconde um jogo sujo de interesses, uma manipulação sórdida, mesquinha, traiçoeira com o povo. Quanto menos se tem gente culta, menos se questiona o poder. É mais simples, mais eficaz para os políticos manter gente alienada que a cada 2 anos vai às urnas e elege aquele prefeitinho ou governador simplesmente pela cara que tem e pelos trocadilhos vagabundos que fazem com os nomes dessas criaturas no mínimo desprezíveis e que pouco se preocupam com o povo que os elegeu. É a festa da hipocrisia!!!

Se realmente tivéssemos esse incentivo, um barateamento dos preços, acredito que a pirataria teria diminuído muito e eu não teria que esperar dias para finalmente ver aquele tão desejado capítulo da série.

De gatos, ausência de coragem e ansiedade se faz um post

Muitas situações cotidianas parecem ser ensaiadas diversas vezes na vida. Quantas vezes não pensamos, anotamos em folhas avulsas ou caderninhos os afazeres do dia, a compra do supermercado, a leitura a ser feita, o plano futuro…? Essa volta ao blog, por exemplo, foi ensaiada mais de 10 vezes, quando vinha aqui, abria a página, começava a escrever ou mesmo ficava olhando para a tela, e a falta de coragem ou de inspiração para a escrita me faziam adiar essas linhas. Um livro, um conto, um filme, uma situação rotineira, algo fora do trivial, tudo isso me dava um certo ânimo para estar aqui e escrever, mas nada, absolutamente nada me convencia a traçar escassas linhas em um concerto aparentemente orquestrado.

Nesses dias a vida parece tomar forma mais consistente, mas ainda cheia de temores, ansiedades, os brotos rasgando o chão novo. Em dias primaveris o que mais vi foram folhas de outono caindo ao chão. A minha árvore está inteira se renovando, mas ainda mantém as raízes fincadas em solo conhecido e produtivo. E mesmo nossas gatinhas parecem renovar-se inteiras. Basta ver seus novos comportamentos e bolos de pêlos que diariamente recolhemos do chão. Medéia se adaptou depois de uma fase conturbada de depressão. Nunca fomos tão arranhados e mordidos violentamente por ela. Enfim, Medéia se recupera e Circe revoltada com os seus filhotes endiabrados resolve fugir de casa. Mais uma rebelde (acredito que dessa vez com causa!). O mais preocupante de tudo isso para nós era o fato de os filhotes ainda dependerem muito da mãe, uma vez que não têm mais que 40 dias de nascidos. Mas descobrimos que após 30 dias é possível inserir outra alimentação além do leite materno. Hoje os bebês tomaram outro leite que não o da mãe e estão todos espertinhos, saltitantes, brincando e correndo pela casa e resolveram nos adotar como “mamães adotivas” deles. Para onde vamos na casa eles nos perseguem, querem deitar conosco, estar pertinho, sentir o nosso afago. É a velha e natural necessidade do calor materno. Torcemos para que Circe retorne ao lar. Vez ou outra ela tem essas crises de desaparecimento e retorna alguns dias depois. Deve ter ido fazer reconhecimento de terreno e conhecer a gataria da vizinhança.

Se cada minuto da vida é uma novidade posso dizer que essa semana as novidades foram visíveis a olho nu. Minha amada esposa precisará resolver questões da transferência de seu curso universitário. Em uma semana em que ela acabou desmaiando por causa do calor (acreditamos que tenha sido esse o motivo!) o fato dela se deslocar para outra cidade sozinha é algo que me preocupa. Mas junto a esse fato vem a possibilidade de realização dela, de estar estudando em um curso que adora, de fazer leituras, de discutir e se inserir cada vez mais no meio acadêmico (embora muitas vezes a academia seja uma verdadeira farsa aos moldes mais medievais possíveis). Cada um constrói  uma visão dos fatos e eu percebo que a nossa visão acadêmica é bastante diferenciada do grande circo, por isso, faz-se necessário esse contato, esse reconhecimento e estranhamento com os fatos a fim de que o esclarecimento e a construção de uma visão mais crítica e transformadora venha a se moldar. Fico torcendo para que tudo dê certo e com o coração apertado de tanta ansiedade!!!