A intolerante tolerância

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A linha tênue que separa a tolerância da intolerância resume-se a um prefixo. Diariamente somos submetidos a situações que solicitam de nós um maior tato, sutileza nas palavras e nos gestos, andar sobre ovos. Somos obrigados a usar sobre a máscara cotidiana uma outra máscara e levados pelas ações de outros somos obrigados a dissimular. Essa dissimulação necessária é usada como um trunfo para não causar aos presentes em nossas vidas situações constrangedoras e desconfortáveis. A partir disso somos obrigados a engolir sapos e educadamente aceitar em nossa casa, em nosso convívio aquele ser ou aquele ato que te causam engulhos. E aí me pergunto até que ponto vale ser realmente sincero quando estamos invadindo o terreno da boa vontade alheia. Melhor: até que ponto vale a  pena deixar que os outros invadam nosso território sendo obrigados a abrir mão de nossas próprias convicções em nome do sorriso do outro? Egoismo? Individualismo? Eu diria que tudo não passa de bom senso. Em certas ocasiões prefiro dizer que estou fora de área ou desligado.

O estranhamento do reencontro

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Pessoas são seres estranhos. Reencontrar pessoas é estranhamento. Principalmente quando você passa anos sem ver alguém e tem a sensação de que a pessoa  com quem você mantinha algum laço ficou perdida no passado. Parece que a situação inteira se enche de cuidados e requintes que não lhe são muito triviais. Tente imaginar alguém com quem você conviveu por 4 anos ou mais. Depois reencontre essa pessoa 6 anos depois. Houve um espaço intervalar maior que o tempo que se conheciam. Parece que esses 2 anos foram o insterstício do esvaziamento. Tem-se uma sensação de não-pertencimento do/no universo daquela pessoa.  A sensação de que não há um pertencimento recíproco. Tudo se torna vácuo. E o momento que era cristal quebra-se com o inevitável silêncio.

Um ano novo para novos sonhos

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Lá se vai mais um ano. Quando a gente menos se dá contas as ruas estão cheias de novo e a busca por compras e mais compras é inevitável. Dezembro é tempo de reunir amigos, talvez seja essa única coisa que me encante verdadeiramente no Natal, independentemente do “presentinho”. O que me importa é o abraço amigo, a presença (ainda que não seja física), o carinho e a consideração. Pela primeira vez acredito que teremos a nossa ceia em casa. É tempo de comemorar a vitória da transferência de curso da minha esposa, os meus êxitos em 2008 e os possíveis planos a serem realizados em 2009. Minha amiga Rosangela Neres (que saudade que tenho dela!) do Academia solicitou que seus amigos colocassem 10 resoluções para 2009. Seguem abaixo as minhas, embora saiba que tenho muitas outras ( no final das contas acabamos deixando algumas pro ano seguinte de novo! É inevitável!!!).

Minhas resoluções para 2009:

1 – Doutorado

2 – Praticar exercícios

3 – Ler mais teorias e escrever mais ficção

4 – Ter um negócio ainda que em sociedade

5 – Aprender uma terceira língua

6 -Realizar ao menos um sonho de cada parte da família

7 – Reencontrar grandes amigos distantes

8 – Realizar projetos no trabalho e participar de mais congressos

9 – Organizar a minha biblioteca

10 – Filho

Entre tantos olhos, teus olhares de Capitã…

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Que Capitu é uma das personagens mais enigmáticas e encantadoras da literatura brasileira todos sabem, que ela é conhecida pelo seu olhar de cigana dissimulada e oblíqua, olhar de ressaca, todos sabem e merecidamente atribuem tais méritos à personagem… mas daí a ganhar uma série com seu nome lá se vão outros quinhentos.

Entre os dias 9 e 13 deste mês a Globo exibiu a adaptação do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis sob o título “Capitu”. O que primeiramente me estranha é o fato do diretor Luiz Fernando Carvalho ( diga-se de passagem um diretor extremamente ousado e excelente, basta lembrar as suas grandes obras-primas “Hoje é dia de Maria” e “Lavoura Arcaica”) ter direcionado o foco para a mulher de Bentinho, a começar pelo título. Qualquer crítico literário ou leitor mais atento logo descobrirá que o cerne do romance não é a possível traição de Capitu, mas as agruras do narrador Bentinho e o seu ponto de vista unilateral sobre os fatos por ele vividos. E que é muito simples perceber que Bentinho, sendo o narrador de sua própria vida pode dar aos fatos a forma que lhe convier. Mas não me cabe aqui ficar questionando minúcias e sim elogiar o primoroso trabalho de Luiz Fernando.

A série, a começar pela excelente fotografia, pelo arranjo da cenografia, figurinos deslumbrantes foi toda um espetáculo para total deleite. Pouco me importam os índices de audiência tão questionados pela mídia, aliás a mídia nos últimos tempos parece que só tem bebibo audiência. As pessoas não têm pensado em qualidade. De um sem-número de amigos que indaguei sobre estarem acompanhando a série posso contar nos dedos aqueles que realmente tiveram sensibilidade para apreender a versão teatral-televisiva global. Ponto para a Globo e para o diretor que conseguiram eternizar na tela os instantes grandiosos da obra machadiana. O texto foi fidelíssimo, sem tirar nem por uma vírgula. As atuações de Letícia Persiles e César Cardadeiro estavam um primor. O toque entre o antigo e o contemporâneo conseguiu estabelecer nas entrelinhas a vivacidade e a permanência da obra de Machado. Uma obra atemporal, a começar pelos temas tratados, ligados à vivência e ao comportamento humanos.

Os únicos pontos que considero um tanto excessivos são a interpretação caricatural de Michel Melamed e a Capitu um tanto insossa de Maria Fernanda Cândido. A atriz por si já preenche a tela com seus olhos de ressaca e encanta, mas dificilmente conseguirei lembrar de uma Capitu que não seja Letícia Persiles. Nunca imaginei um Bentinho tão casmurro quanto Melamed. A personagem Tia Justina um tanto caquética também não me agradou. Em minha leitura nunca atentei para os gestos interesseiros e desconfiados de José Dias, mas é um mistério a ser desvendado a partir do olhar do diretor. As insinuações da amizade homoerótica de Bentinho e Escobar foram outro ponto bastante comentado na rede. O que se pode apreender nas entrelinhas é que o personagem exerce realmente um certo fascínio sobre Bentinho e muito se questiona realmente da amizade dos dois. Como Machado é mestre nesse tipo de insinuação e não deixa claro para o leitor quais as reais pretensões das personagens umas com as outras fica a interrogação para mais esse mistério do Dom Casmurro. Entre as produções televisivas de 2008 destaco como uma das melhores. Destaque para as cenas de encontro de Capitu e Bentinho, tanto na adolescência quanto no reencontro adulto movidas pelo som Elephant gun de Beirut.

Transcendendo o abstrato

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Criando todas as coisas, ele entrou em tudo. Entrando em todas as coisas, tornou-se o que tem forma e o que é informe; tornou-se o que pode ser definido; e o que não pode ser definido; tornou-se o que tem apoio e o que não tem apoio; tornou-se o que é grosseiro e o que é sutil. Tornou-se toda espécie de coisas: por isso os sábios chamam-no o real.” Vedas (Upanichade)

Há tempo para tudo…

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Há um turbilhão de coisas na cabeça e todas merecem atenção especial nesse instante de catarse virtual. É preciso listá-las nos seus próprios tempos.

1 – Tempo de distanciar: Circe mia todos os dias com saudades dos seus filhotes que já foram doados. Aos poucos sua amizade com Medéia começa a se reaver, mas devido ao leite que ainda lhe enche as tetas, ela ainda mia muito (talvez pela dor!). É uma espécie de lamento, um canto plangente de mãe saudosa dos filhos. É dilacerador!!!

2 – Tempo de concluir: Finalmente terminei a leitura do The believers. Confesso que a leitura me deixou muito surpreso no final. Não consegui entender os reais motivos que levaram uma personagem tão maquiavélica como Audrey a tomar uma decisão tão terna e humana. Algo que me inquietou muito no livro foi a incompletude dos personagens, principalmente de Karla. Todos se sentiam vazios, sempre em busca de algo, em eterna transição…

3 – Tempo de retomar: Depois de muitos anos sem pintar, eis que finalmente resolvo me lançar à pintura à óleo novamente. Essa semana pintei uma réplica do Abaporu de Romero Brito. Uma pintura super moderna, colorida, tropical, com a cara da nossa casa e de nossos pensamentos antropofágicos. A falta de contato com os materiais por todo esse tempo me causou um certo estranhamento, principalmente pelo aroma nada agradável dos solventes e das tintas. Mas foi um momento sublime  ver o resultado ali, na minha frente se revelando sob a forma de cores e texturas. Um presente para a nova casa e a nova fase! A única questão nada agradável foi uma dor na coluna devido ao fato de não ter cavalete para colocar a tela. Fiquei dividido entre o chão e uma cadeira, mas nem isso impediu que a obra ficasse explêndida.

4 – Tempo de construir: Ando bem inspirado nesses dias… Tanto que depois de séculos sem escrever algo consistente, escrevi um poema chamado Insólito. Um poema mais que contemporâneo, bastante fragmentado, engajado… com ele estou concorrendo ao XIV FESERP, prêmio do qual fui jurado ano passado e promovido pelo Acauã Produções Culturais, grupo que admiro muito.

5 – Tempo de contemplar: Época de filmes. Longe dos cinemas (no sertão cinema é artigo de luxo) busco outras alternativas para estar conectado ao mundo dos filmes e tenho aprendido a controlar minha louca ansiedade vendo filmes longos. Não conseguia ficar uma hora vendo um filme e hoje consigo ficar um domingo inteiro vendo um atrás do outro. Aliás, não se consegue ter outra opção engrandecedora por aqui a não ser ver filmes e ler. Os programas que nos restam são escassos. Há peças no teatro mas de maneira muito esparsa e aleatória. Entre as opções de filmes temos visto todas as adaptações dos romances de Jane Austen e filmes brasileiros. Adorei ter revisto “A hora da estrela”, de Suzana Amaral. Foi um momento sublime ver Marcélia Cartaxo e José Dumont na pele de Macabéa e Olímpico. O filme consegue levar a essência da personagem de Clarice pra tela, feito muito complicado. Só me entristece ver um ator como José Dumont lutando contra vampiros em uma certa novela de mutantes. É vergonhosa a falta de incentivo à cultura nesse país.

6 – Tempo de refletir: Fim de ano! Odiável época em minha concepção! Detesto ter que refletir sobre as mil coisas que o ano trouxe ou deixou de trazer. Isso porque já sou um ser eternamente intimista e reflexivo. Sim! Acho o papai noel uma figurinha burguesa e capitalista e não consigo ver nele o verdadeiro espírito do Natal. O que me conforta nesse período é o carinho amigo, a (re)aproximação de pessoas estimadas, dos familiares… mas é abominável o fato de seres estranhos e alheios à nossa convivência se entranharem nas nossas vidas acreditando que são nossos “amigos secretos”. Eles sequer são amigos revelados, jamais secretos. E tudo se transforma num pretenso clima de alegria, satisfação, como se o mundo conseguisse sanar tudo de ruim enquanto enchemos nossas sacolinhas com roupas novas e panetones.

7 – Tempo de (re)ler: Assistindo ao programa do Jô nesta sexta dia 5, vi uma entrevista com os atores da nova série Capitu, a qual aguardo ansiosamente para ver. A Globo tem feito uma propaganda massiva e a série pareceu-me ter um ar bastante contemporâneo, embora a história se passe no século XIX. É a contemporaneidade de Machado. Que vontade de reler Dom Casmurro. Lembro-me de ter lido o livro pela primeira vez aproximadamente aos 15, 16 anos  e quão odiável achei aquele livro de linguagem chata e pouco envolvente. Jô falou algo que gostei de ouvir: os jovens não deveriam ler por obrigação! Um adolescente não tem maturidade pra Machado de Assis e acaba de maneira errônea abominando o livro pro resto da vida. Ainda bem que não entrei nesse rol, por que exatamente alguns anos depois voltei ao Dom Casmurro com outro olhar, já aluno de Letras e mais tarde me envolvi novamente com a obra do autor quando já professor de literatura. Vieram os Contos Fluminenses, Quincas Borba, Iaiá Garcia, Helena, Esaú e Jacó, Memórias póstumas… A ironia de Machado de Assis é hoje um pouco de mim e só depois de muitas leituras, assim como Maria Fernanda Cândido, eu percebi que Dom Casmurro é muito mais amplo que a possível traição de Capitu. É preciso ver com olhar bem mais profundo, é preciso penetrar além da superficialidade das letras no papel, é preciso revelar sentidos ocultos… Que venha a série!

8 – Tempo de semear: 2009 é tempo de tentar mais uma vez o doutorado. Não posso esperar 4 anos pra ser liberado pela instituição. Preciso agir antes que o tempo me trague. Hoje recolhi uma série de livros para ler e montar meu projeto. Sei que muita dor de cabeça ainda virá, mas preciso me antecipar para não correr o risco que corri em 2008 deixando tudo para última hora e fazendo um projeto indigno de aprovação.

9 -Tempo de decisão: amanhã a esta hora saberei o real destino de minha esposa na sua transferência de curso. Que o cosmos aja em favor dela e tudo dê certo na prova que ela fará. Torço para que o esforço seja válido.

10 – Tempo de respirar: Fim de ano é sinônimo de farturas, excessos, comidas e calorias a mil. E aí depois vem a culpa pelas gordurinhas ganhas, pelo colesterol e taxas altos. Estou cometendo meus mil excessos desde já por causa da comida hipercalórica daqui do sertão. O que tenho comido de torresmos, fava, mugunzá não está no gibi. E as cervejinhas de fim de semana?! (Meu Deus! Eu também bebo!!!) Hora de procurar solução: exercícios. Nada mais chato que ter que se readaptar a rotina de exercícios, alongamentos, cortes na alimentação… mas nada mais compensador que ver seu corpo entrevado se alongando, seus músculos flexíveis e seu corpo menos tenso. Tudo começa a ser mais equilibrado, menos estressante. Você começa a respirar melhor. Libera toxinas, sua à vontade, perde gorduras indesejadas logo. Mas é preciso ter algo que me é super difícil: disciplina. Sou um ser altamente indisciplinado, o que não quer dizer que seja desorganizado. Acordar cedo, ter que ir 4 vezes à academia religiosamente… Confesso que vou tentar! Está entre as promessas para 2009, que começo a cumprir ainda em 2008. Pior que ter que aturar toda essa rotina de exercícios é agüentar o monte de cérebros de azeitonas que encontramos pelas academias. Um bando de narcisistas, gente que resume a vida a um corpo e acha que sinônimo de felicidade é ter centímetros a mais de bíceps e abdômen sarado. Antes de sarar meu corpo malho meu cérebro, esse sim merece cuidado especial para que eu não me torne uma embalagem vazia. Que eu tenha forças para aturar certas figurinhas carimbadas. Pai, eles não sabem o que dizem. Definitivamente, não!