Obrigação

compliance_definition Há dias em que nada nos satisfaz. Um tédio tremendo nos abate, nos toma, faz-nos um verdadeiro escravo dele. Há dias em que nos sentimos obrigados a não sermos obrigados a fazer nada. No sentido literal da coisa ficar apenas de papo pro ar. Dormir o dia inteiro, esquecer que existe telefone, relógio, televisão, livros pra ler, obrigações… Tudo que se quer é desligar a conexão, a antena que te liga ao mundo e afastar-se de tudo que é obrigatório.

Obrigação. Há um certo tempo venho me incomodando com a imagem que as pessoas criam de nós acadêmicos. Não sei de onde se tirou a idéia de que acadêmicos são intolerantes máximos de todas as coisas e que se trancafiam em seus mundos, suas clausuras, verdadeiras redomas de vidro. Quem disse que muitos de nós não pode comer junk food, ler best-sellers, ver séries bobinhas, assistir besteirol, ouvir música brega de doer, ver aqueles programas para os quais muitos torcem o nariz, estar em forma? E quem disse que não somos vulneráveis, humanamente suscetíveis a tudo? Que não falamos palavrão, que só gostamos de Shakespeare? Há que se desmistificar muita coisa. O que quero esclarecer é que nem tudo realmente desce na peneira das nossas escolhas. E eu incluiria nesse rol uma série infinda de coisas, desde livros até pessoas, mas não significa que somos um bicho-papão e acabamos destruindo acidamente tudo que passa à nossa frente e não nos interessa.

Nesse cenário de escolhas entra em cena uma doce palavrinha já citada em outros posts: intolerância. Ser obrigado a ser tolerante? Quem disse isso? Por que preciso ler Dostoiévski, Cervantes ou Chekov apenas para exibir status na academia? Para que exibir títulos fúteis que muitas vezes não me preenchem a alma? E porque ter que montar mil projetos simplesmente para ter que provar aos outros que sou capaz? Há horas em que não me obrigo a gostar de mim mesmo, imagine me obrigar a satisfazer e amar o mundo. Preciso ver a lista interminável de filmes que meus amigos viram? Ler todos os títulos indicados naquele curso de pós-graduaçao? Ou ter uma biblioteca infinda de títulos internacionais para “apenas exibir” que sou um ser pretensamente cosmopolita? Ainda: preciso ser sempre engomadinho, educado, zeloso, exemplar? Não posso nunca falar alto por que sou acadêmico… E aí um olhar venenoso te fuzila de longe ao te ver no shopping comendo batata-frita com cerveja e acaba de morrer diante daquele olhar o terno professor de literatura que discutia Dickens, Shakespeare e Clarice Lispector. Pronto: perdi a identidade supostamente intocável e virei um bebarrão. Talvez o mundo precise ficar cego para certas questões.

Pesadelos…

pesadelo

Há muito, mas muito tempo mesmo ele andava tendo sonhos. Seria melhor dizer pesadelos. Metaforicamente eles queriam dizer-lhe algo, mas ele não conseguia decifrar absolutamente nada. E eram quase sempre sonhos realmente assombrosos, tristes, de muita agonia, de lágrimas correndo aos olhos. Acordava sem fôlego. Ontem ele estivera em um hospital, uma senhora acabara de fazer uma cirurgia. Ao lado da cama sua filha e o médico. Um olhar choroso com profundas olheiras na paciente, os cabelos loiros caídos sobre a colcha levemente suja de sangue. A filha com olhos verdes de esperança. O médico com os olhos negros da morte. Assustadoramente ele olhara para o alto e sobre a cama, uma espécie de câmara, todos os órgãos da paciente estavam pendurados em ganchos de açougue e respingavam. Era a visão da morte que ali estivera. Rins, fígado, coração, intestinos, estômago… tudo prontamente exposto e ainda vivo. Sob o olhar atônito da filha o médico anunciara: está morta! E ainda que atônita ela relutasse uma melhora devido à cirurgia bem sucedida o médico nada mais podia fazer. E então ele acordou do doloroso pesadelo que era a vida!

Seis coisas sobre mim – presente de grego

Prometi que meu próximo post seria este e entro 2009 cumprindo promessas. Minha amiga Rose, do blog Academia me enviou este presente de grego. Tu não imaginas, Rose, quão difícil é tecer mesmo que sejam breves linhas sobre a gente. Falar de qualquer outra coisa é bem mais fácil que de nós mesmos. Mas vou tentar arrancar umas coisinhas a meu respeito. O presente tem algumas regras que peguei do blog do Daniel, que foi quem enviou pra minha amiga Rose.

1 – Tenho ficado cada vez mais intolerante com algumas coisas e pessoas, principalmente. Sou ranzinza e explodo facilmente quando vejo que querem se aproveitar de mim me taxando de “bonzinho”. Odeios pessoas muito boazinhas porque aos olhos dos outros não passam de fantoches. Minha tolerância com o ser humano tem sido cada dia menor. Mas não sou descrente de tudo, ainda há quem salve a pátria. Assim, Rose e Jon, sejam bem vindos ao clube porque temos características iguais. Um outro aspecto que considero terrível é o julgamento sem conhecimento de causa. Há alguns meses escrevi um post intitulado Hamlet inopinadamente deu-me as mãos. Lendo alguns comentários feitos no/ao meu blog encontrei no google um blog ridículo no qual a blogueira julgava o meu post como sendo de um metido a metrossexual, que bebia e batia em mulher. Uma atitude mesquinha de gente que sequer sabe julgar o que lê. Mas nem a criaturas como essa dou crédito, tanto que me privo de dar nome à vaca. Eis a prova de que não consegui me livrar do fato de ser vingativo.

2 – Adoro gatos. É algo que desde criança me persegue. Já cheguei a ter 13 gatos. Hoje possuo 2 gatas chamadas Circe e Medéia. Devo confessar que amo bichos no geral, mas tenho um certo receio de cachorros porque quando criança levei muita carreira deles e quase fui mordido.

3 – Natureza. Há coisa mais bonita que o azul do mar? Um céu estrelado? Um dia chuvoso com direito a nuvens pesadas, raios e trovões? Desde criança tenho uma forte ligação com a água e um forte fascínio pelo fogo. Talvez isso me faça profundamente sinestésico. Gosto de sentir! Não há nada mais forte e intenso que o toque, o olhar, o cheiro, a audição e o sabor quando sentidos com a alma.

4 – Livros. São o meu universo, a minha vida cotidiana, a construção do meu conhecimento, meus companheiros na solidão e na alegria, meus caminhos a trilhar, minhas descobertas, minhas angústias e felicidades mais desejadas. Sou viciado em comprá-los. Vivo da literatura e das línguas e sou muito orgulhoso da minha escolha profissional. Não sou como muitos profissionais do ensino que odeiam o que fazem. Amo a minha profissão e estudo para que possa delinear bons caminhos e partilhar com os outros um pouco do que tenho aprendido ao longo da vida. Além de ler gosto muito de escrever, de criar universos. A imaginação é o meu caminho dos tijolos amarelos.


5 – Sou muito família e amo minha terra. Faço de tudo pra ter as pessoas da família perto e compro uma boiada pra entrar na briga com quem se mete com algum deles. Sou capaz de doar tudo que tenho em nome da felicidade deles. E ainda adoro o colinho de mainha.

6 – Tenho estado cada vez mais fechado pra novas amizades, ando controlando minha dieta, entrei na academia e quero ter um corpo saudável, pretendo fazer doutorado, não durmo quase nada à noite, respondo certas coisinhas na bucha, sou extremamente auto-crítico, um dia voltarei a fazer teatro, odeio pessoas preconceituosas, detesto sol forte, estou um pouco decepcionado com o mundo acadêmico, ultimamente tenho escolhido entre a cama e a casa, invés de ir pra rua. O fato é que adoro dormir muito tarde e odeio acordar cedo.

Como não tenho muitos amigos no blog  e alguns dos que tenho já receberam o presente de grego vou passar o presente para apenas 2 pessoas. Vamos lá:

Eveline Alvarez

Fabrícia Kalline

E no encanto de cantar… Se canto perdido eu canto…

Entra 2009 e o que posso confessar é que minhas esperanças de que seja um ano frutífero são as melhores. Comecei cumprindo parte das promessas feitas nas resoluções: academia e dieta. Cortar mais os tentadores doces e comer menos carboidratos (tenho exagerado nas massas). Começo o ano com uma preguiça horrenda, uma vontade ínfima de fazer qualquer atividade que não seja dormir e dormir. Horas na net, acordar tarde… são esses hábitos ridículos que devo retirar completamente de minha vida. As festas de fim de ano com a família aqui no Natal e depois ano novo foram muito boas. Foi quase uma inauguração da casa nova! Adoro receber as pessoas que amo!

Aos poucos vou separando materiais para estudar, organizando planos, pagando contas, brincando aqui e ali com meu sobrinho que está nos visitando e tentando ser menos intolerante com algumas coisas. É difícil mudar da noite pro dia! Mesmo esse blog, que passou anos sem funcionar, já teve sua devida reabilitação, um sinal de que eu tenho conserto kkk! O ano promete muito trabalho. Em algumas semanas devo voltar às aulas, corrigir milhões de coisas pendentes, resolver notas finais, organizar diários, planejar novas aulas, projetos, metas. É aí que devo colocar em ação uma característica que pouco me pertence: ser DISCIPLINADO.  Sou muito inquieto  e acabo fazendo mil coisas ao mesmo tempo, mas com o passar dos dias descobri que não adianta querer ser mil e acabar não sendo ao menos um que preste. Prefiro, a partir de agora, realizar uma atividade por vez, desde que seja concluída com êxito.

2009 entrou mesmo cheio de coisas boas. Uma delas foi a minha volta ao FESERP (Festival Sertanejo de Poesia), um prêmio promovido pela Acauã Produções Culturais, grupo do qual fiz parte por quase 5 anos. É muito bom ver que ainda existem pessoas profundamente irmanadas pela arte. Reencontrei amigos, conheci novos, ouvi boa música, poesias, vi apresentações muito interessantes de música e danças populares e participei de um programa de rádio.

Nunca participei tanto do Book Club da BN. Nas discussões do A fortunate age quase não tenho ido, porém, nas discussoes das obras clássicas estou cada vez mais empolgado. É muito bom ver que as pessoas lêem e interagem a partir do que você escreve. Os moderadores sempre mandam algo sobre nossas opiniões. Os temas são variados e incluem até mesmo discussões sobre adaptações da literatura para o cinema. Esses dias reli vários contos de Poe simplesmente pelo fato de ter que participar das discussões. O melhor é que elas continuam abertas, independetemente do prazo de discussão ser estabelecido em calendário (tudo é muito organizado por lá).

Estou devendo a tarefinha de minha amiga Rose. Ganhei dela um presente de grego e tenho que falar 6 coisas aleatórias sobre mim. Meu próximo post, prometo, será a resolução da tarefa. Também prometo ler e escrever mais em 2009. Fazer desse blog mais literário e organizar minha produção.

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Quero registrar o quanto estou adorando a viagem pelo universo de Maysa. Inicialmente julguei-a como uma doidivanas, uma inconsequente, mas depois, revendo os capítulos pelo Youtube percebi quão grande era a luta existencial dessa mulher. Maysa chorava nas canções, seus versos eram lágrimas, suas estrofes eram angústia abafada pela vida e liberta na poesia. Maysa era dois olhos e uma boca, olhos eternos e pacíficos, como diria Manuel Bandeira. Mas cantava, sim, com o coração… triste… melancólico.  E que bom descobrir Dolores Duran em Maysa, também magistral em “Por causa de você”. Em tempos de músicas cada vez mais descartáveis, ouvir música de qualidade em canais abertos é sinal de fim dos tempos. Sendo assim, que eles venham.

Dentre as fortes canções da cantora destaco “Resposta”:

Ninguém pode calar dentro em mim
Essa chama que não vai passar
É mais forte que eu
E não quero dela me afastar
Eu não posso explicar quando foi
E como ela veio
E só digo o que penso
Só faço o que gosto
E aquilo que creio
Se alguém não quiser entender
E falar, pois que fale
Eu não vou me importar com a maldade de quem nada sabe
E se alguém interessa saber
Sou bem feliz assim
Muito mais do que quem já falou ou vai falar de mim