Dias enauseantes

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Um dia perfeito para uma introspecção: essas frias claridades que o sol projeta, como um julgamento sem indulgência, sobre as criaturas, entram-me pelos olhos; estou iluminado por dentro por uma luz empobrecedora. Tenho certeza de que bastariam quinze minutos para que eu atingisse a suprema repugnância de mim mesmo. […] Permaneço sentado, balançando os braços, ou então escrevo sem entusiasmo algumas palavras, bocejo, espero o cair da noite. Quando estiver escuro, os objetos e eu sairemos do limbo.

(A Náusea, Sartre)

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Experiência x tempo

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Há quem diga que é preciso um longo tempo para amadurecer e que só longos períodos trazem aprendizados sólidos para toda a existência. Aprendi em um período mais curto do que eu imaginava coisas que eu levaria toda uma vida para saber, ou talvez já estivesse latente em mim toda essa sabedoria e eu não tivesse atentado para essa percepção. Gestos, palavras, atitudes castradoras, hierarquias postas em jogo, reprovações de atitudes aparentemente inocentes e imaturas, idoneidades postas em questão, falsas “inexperiências” simuladas em um carteado onde esconder uma carta na manga é fruto de um jogador esperto e veloz, sonhos podados, peitos apunhalados e línguas ferinas destilando peçonha. Há quem diga ter percorrido longos caminhos e que a força da experiência dos dias teria lhes trazido vantagem para crer que aquele que pouco caminhou tenha um olhar menos racional ou menos valoroso sobre as coisas. Pobres daqueles que não veem que é melhor observar que falar! E nessa experiência de observação posso dizer que aprende-se muito mais do que acredita-se aprender falando, julgando, desorientando, excedendo em gestos, apresentando vantagens que ora sabemos ser muito mais desvantajosas e mesquinhas do que aparentemente são. Cheque-mate! Matemos reis e rainhas e deixemos aos pobres plebeus a certeza de que tempo e experiência são opositores fatais, embora nem sempre.

Dançando com lobos…

“Muito teria de dizer sobre esse contentamento e essa ausência de dor, sobre esses dias suportáveis e submissos, nos quais nem o sofrimento nem o prazer se manifestam, em que tudo apenas murmura e parece andar nas pontas dos pés. Mas o pior de tudo é que tal contentamento é exatamente o que não posso suportar. Após um curto instante parece-me odioso e repugnante. Então, desesperado, tenho de escapar a outras regiões, se possível a caminho do prazer, se não, a caminho da dor. Quando não encontro nem um nem outro e respiro a morna mediocridade dos dias chamados bons, sinto-me tão dolorido e miserável em minha alma infantil, que atiro a enferrujada lira do agradecimento à cara satisfeita do sonolento deus, preferindo sentir em mim uma verdadeira dor infernal do que essa saudável temperatura de um quarto aquecido.”

(O Lobo da Estepe, Hermann Hesse, trad. Ivo Barroso)

Devaneios

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Ah! Este silêncio cortante que dilacera os dias e jamais alivia a alma, amargo fel perseguidor.

Cacos de vidro jamais serão vaso renovado,  haverá sempre remendos na essência.

Palavras fogem, tornam-se elemento efêmero. O que tento registrar já nem significa mais o que sinto. Lembro Clarice, recorro aos livros, procuro em páginas manchadas pelo tempo uma espécie de redenção momentânea nas vozes que ecoam nas manchas negras do papel. Nada me ocorre. Os livros são meus queridos e desejados inimigos mais fiéis.

Há dias tenho corrido por esse labirinto e só consigo enxergar a sombra do Minotauro a me espreitar ao longe e zombar de meus cálculos tolos e vãos em busca da saída. Procuro escalar os muros e vejo ante meus olhos uma imensidão escura de paredes, becos, reentrâncias, ângulos… Ao longe algo me acena em busca de uma resposta para os meus anseios. Respondo-lhe com um muxoxo, um sinal de desagravo. Que ele encontre respostas para os seus próprios anseios antes de escavar as angústias alheias.

Descubro em páginas emprestadas letras que não são minhas. Alguém as invadiu inadvertidamente, rasurou a existência, corrompeu-as com líquidos indesejáveis, escreveu em linhas certas a vida indesejada.

As horas passam e me vejo invadido pela sensação de estar sendo dizimado. O tique-taquear do meu relógio mental avisa diariamente à hora estranha do crepúsculo que meus dias estão contados e uma taquicardia inopinada invade meu peito.

Pequenas ações maculam o que me resta dessas horas. Temores, dissabores,  grandes aflições indesejadas, traços de que o cansaço e a falta de fé no ser humano estão cada vez me tirando de mim mesmo.

Quero de volta a sã loucura que me tomaram!

Imagem: Robert and Shana ParkeHarrison