Roman Loranc | Road to Modesto

Se alguém encontrar o rumo,  me guie.

“Qual é a sua estrada, homem? – a estrada do místico, a estrada do louco, a estrada do arco-íris, a estrada dos peixes, qualquer estrada… Há sempre uma estrada em qualquer lugar, para qualquer pessoa, em qualquer circunstância. Como, onde, por quê?” Jack Kerouac – On the road

Impossível ouvir essa canção e não se transportar a um outro plano. É transcendental. A brisa, a tranquilidade…Se eu já adorava Dido, depois de Northern Skies…

barco (600 x 450)

Aprendi pelas andanças da vida que é preciso pular do barco certas vezes para que possa evitar seu próprio naufrágio, para que em atitude de luta ainda consiga se debater contra as águas e nadar até a margem mais próxima. Em algumas delas somos impelidos a pular do barco, a vida nos empurra impiedosamente contra as águas frias que brigam contra os ventos e havemos de travar lutas com uma dupla natureza. Outras vezes o barco chega mansamente ao seu destino, ainda que com certas turbulências no caminho, nada  atrapalha o rumo das velas. Amanhã talvez precise pular do barco, talvez precise enfrentar as incertezas das águas com as quais terei que lutar, os monstros marinhos que terei que enfrentar e acima de tudo os medos mais íntimos e mais aflituosos que estão em mim. Mas dessa vez estou certo de que a melhor opção é banhar-me nas águas tranquilas de minha consciência e, esperançoso, ter a certeza de que ao alcançar a margem haverá do outro lado um novo barco à minha espera e dessa vez eu serei o comandante de minha própria rota.

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De fato, seria relevante, ainda que por alguns instantes, incorporar as virtudes do famoso príncipe de Maquiavel: clemência, benevolência, humanidade, retidão e religiosidade. Agora, não acreditem que todas estas seriam amplamente distribuídas como pérolas aos porcos. Sim, quero a idéia dissimulada de ter cada uma dessas virtudes e, mais ainda, dissimulá-las descaradamente aos outros. O que me cansa é a verdade. É estar sempre de cara limpa prestes a ser esbofeteada, arranhada, dilacerada pelos tiranos e algemado não poder fazer absolutamente nada. Que esta face retribua em tons de sarcasmos ferinos virtudes tão nobres que jamais o ódio brote naqueles que assistem meu monólogo. Que invés da ira eu possa despertar afeição e sagazmente manipular, como um ditador disfarçado de ingênuo e canonizado ser, a massa dos impuros que me cercam.

Return

Voltar traz sempre essa sensação de recomeço, de reconstruir cada pedaço de chão como se estivesse em luta diária construindo o próprio teto. Voltar é primordial, principalmente quando se sabe que a casa está confortavelmente de portas abertas. Ainda que desorganizada, com folhas de outono correndo desvairadas na força dos ventos. Arrumar cada canto, retirar grãos de poeira, reestabelecer cada papel, ter a certeza de que ainda que longe vozes de apoio ecoam, mãos amigas te conduzem pelas estradas do indizível e a palavra tem a sua força oculta suavemente desvelada.

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Da criança que apanhava do pai ao homem infeliz com as acusações de pedofilia, de rosto transformado por inúmeras cirurgias, amores infelizes e de filhos sem mãe, muitas são as imagens que bombardearam em nossa tv através dos noticiários ou mesmo em revistas e jornais. É inegável que atrás de tudo isso havia uma pessoa talentosa, um verdadeiro talento, um show man. Michael era único em voz, dança, vestuário, composições… não é à toa que logo reconheceram-no como “o rei do pop”. O que também é inegável é que os mesmos que alçaram a carreira do cantor na mídia foram os que o destruíram. A meu ver, talvez por admirá-lo desde criança, seja lá o que verdadeiramente tenha acontecido diante de todos os fatos até aqui, Michael Jackson foi uma grande vítima, massacrado pela mídia , explorado pelos produtores e por todos que acabaram em pouco tempo derrubando a história alçada com tanto sacrifício pelo menino que apanhava do pai com fios de ferro na infância. O fato é que agora, talvez cansado, talvez mal-entendido ou mesmo nunca tendo conseguido alcançar o que sempre desejou, Michael foi uma grande vítima do algoz que ele mesmo criou: a fama. Aqui questiono: até onde vale a pena entregar a própria vida em nome do luxo e da carreira? É fato que um talento nato como Michael Jackson não passaria ileso, tanto que seus passos e canções atravessaram gerações e ficarão eternos. Ele não foi diferente de outros que sofreram as agruras da vida de sucesso.

Não poderia deixar de falar aqui, neste blog, sobre aquele que de certa forma marcou a vida toda uma geração.  Apesar de tudo que foi noticiado durante todos esses anos nunca deixei de gostar da música do cantor e continuarei a admirá-lo. A notícia da morte de Michael Jackson certamente foi um choque para mim e para muitos. Impossível não lembrar de Billie Jean, Thriller, Black or White, Bad, Ben e das agradáveis e dançantes canções do Jackson Five. Entre os fatos  ocorridos com o cantos que mais me admirou ao longo desses anos foi a estranha transformação do seu rosto. Nunca se soube o real motivo de tantas transformações. Talvez tenham sido frustrações de um menino cuja imagem era  horrendamente negada pelo pai, que julgava-o de nariz bizarro quando adolescente. O fato é que Michael cresceu cheio de traumas de sua infância e com eles construiu uma personalidade afetada por fantasmas eternamente recorrentes.

Prefiro lembrar da imagem do cantor nos palcos invés de aliá-lo à solidão visível no seu olhar através das entrevistas ou mesmo do homem que pode ter tido uma overdose.

Só agora, Michael, todos gostam de ti e te julgam o “rei do pop”! Por anos, foste o pedófilo, o menino problemático,  o pai perturbado, o homossexual frustrado, o negro que negava a negritude, o dependente químico, o E.T., o motivo de chacota dos jornais, revistas e TVs… Michael, only at present “they care about you”!!!

A música perde um talento e silencia! Michael, descanse em paz!

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É preferível a mimese que o vazio inverossímil.

“Não me dêem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre. Não me mostrem o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração. Não me façam ser quem não sou. Não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente. Não sei amar pela metade. Não sei viver de mentira. Não sei voar de pés no chão. Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma para sempre.”

Clarice Lispector

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Um dia perfeito para uma introspecção: essas frias claridades que o sol projeta, como um julgamento sem indulgência, sobre as criaturas, entram-me pelos olhos; estou iluminado por dentro por uma luz empobrecedora. Tenho certeza de que bastariam quinze minutos para que eu atingisse a suprema repugnância de mim mesmo. [...] Permaneço sentado, balançando os braços, ou então escrevo sem entusiasmo algumas palavras, bocejo, espero o cair da noite. Quando estiver escuro, os objetos e eu sairemos do limbo.

(A Náusea, Sartre)

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Há quem diga que é preciso um longo tempo para amadurecer e que só longos períodos trazem aprendizados sólidos para toda a existência. Aprendi em um período mais curto do que eu imaginava coisas que eu levaria toda uma vida para saber, ou talvez já estivesse latente em mim toda essa sabedoria e eu não tivesse atentado para essa percepção. Gestos, palavras, atitudes castradoras, hierarquias postas em jogo, reprovações de atitudes aparentemente inocentes e imaturas, idoneidades postas em questão, falsas “inexperiências” simuladas em um carteado onde esconder uma carta na manga é fruto de um jogador esperto e veloz, sonhos podados, peitos apunhalados e línguas ferinas destilando peçonha. Há quem diga ter percorrido longos caminhos e que a força da experiência dos dias teria lhes trazido vantagem para crer que aquele que pouco caminhou tenha um olhar menos racional ou menos valoroso sobre as coisas. Pobres daqueles que não veem que é melhor observar que falar! E nessa experiência de observação posso dizer que aprende-se muito mais do que acredita-se aprender falando, julgando, desorientando, excedendo em gestos, apresentando vantagens que ora sabemos ser muito mais desvantajosas e mesquinhas do que aparentemente são. Cheque-mate! Matemos reis e rainhas e deixemos aos pobres plebeus a certeza de que tempo e experiência são opositores fatais, embora nem sempre.

“Muito teria de dizer sobre esse contentamento e essa ausência de dor, sobre esses dias suportáveis e submissos, nos quais nem o sofrimento nem o prazer se manifestam, em que tudo apenas murmura e parece andar nas pontas dos pés. Mas o pior de tudo é que tal contentamento é exatamente o que não posso suportar. Após um curto instante parece-me odioso e repugnante. Então, desesperado, tenho de escapar a outras regiões, se possível a caminho do prazer, se não, a caminho da dor. Quando não encontro nem um nem outro e respiro a morna mediocridade dos dias chamados bons, sinto-me tão dolorido e miserável em minha alma infantil, que atiro a enferrujada lira do agradecimento à cara satisfeita do sonolento deus, preferindo sentir em mim uma verdadeira dor infernal do que essa saudável temperatura de um quarto aquecido.”

(O Lobo da Estepe, Hermann Hesse, trad. Ivo Barroso)

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