Abril 29, 2008 de epifaniasvirtuais

Nada melhor que um bom livro ou filme para matar o tédio. Essa semana fiz uma promessa a mim mesmo: ler um livro por semana. Começarei com os menos volumosos, de contos curtos ( não os de Alice Munro que têm mais de 90 páginas cada conto e pra mim são novelas). Depois, em uma atitude mais ousada, passarei a explorar os livros mais volumosos dividindo-os caso sejam excessivamente volumosos. De toda forma, este projeto não tem caráter nenhum de pedantismo nem de obrigação absoluta. É leitura por fruição, sim. E, claro, leitura para aquisição de conhecimento, enriquecimento cultural, que não sou bobo nem nada. A exploração de novas literaturas é algo sempre prazeroso. Comprei um livro de contos mundiais em inglês esta semana. Mato dois coelhos numa cajadada só: melhoro meu inglês e leio literatura universal. A agradável surpresa é que encontrei lá um conto do nosso Machado de Assis - A cartomante. Comecei com os contos Borges e eu, do argentino Jorge Luís Borges e O colar, do francês Guy de Maupassant. São contos envolventes e de trama muito bem entrelaçada. O conto de Borges é uma grande brincadeira com o fazer literário e o de Maupassant parece mais uma peça de moralidades e costumes que tem um fim surpreendente. Agora me aventurarei nos escritos de outros países. Ainda faltam Rússia, Alemanha, Irlanda, Inglaterra, Brasil, Tchecoslováquia, EUA , Itália, Japão e Nigéria. É uma verdadeira volta ao mundo através da literatura. Aguardo com ansiedade os novos livrinhos de literatura irlandesa e russa. Verdadeiramente um projeto ambicioso para matar o tédio.
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Abril 27, 2008 de epifaniasvirtuais

Em todas as profissões sabemos que há percalços, inevitavelmente. O que me desagrada pensar não é exatamente nas dificuldades que a profissão nos traz em sentido de desafios, de exigir maior conhecimento da área em que se trabalha, de ter uma postura mais técnica ou profissional em relação a isto ou aquilo. Meu desagrado vem do fato de lidar com pessoas que esqueceram que a educação é algo que continua primordial nos dias atuais. E alguns esquecem que nós, professores, em um cargo altamente exigente como este, somos humanos e passíveis de atitudes completamente humanas. Às vezes tenho a impressão ou até mesmo a certeza, de que os nossos educandos acham que somos robôs, que temos um botãozinho programado pra tolerarmos sempre e com bom humor as atrocidades e as barbáries que eles provocam em sala de aula. É um festival de palavrões, de conversas descabidas, indevidas, intolerantes e inaceitáveis. E se corremos o risco de reclamá-los também colocamos em conta o nosso emprego por que uma palavra pode ser avaliada, julgada, atiçada e atirada contra você de maneira indevida e imperdoável. Outra coisa que pouco se leva em conta é que as palavras atiradas de lá não nos ferem aqui, mas qualquer uma que saia daqui atinge e macula o lado de lá. É uma verdadeira faixa de Gaza. Chegamos à era dos professores sem qualquer importância. Essa profissão tão pouco valorizada no país e em todo o mundo, chega a um nível de banalização incomensurável. Temo muito isso tudo, pois sei que todas as profissões passam pelos conhecimentos partilhados com um professor. Penso no fim, na extinção dos profissionais da educação e fico pensando como as outras profissões lidariam com a extinção dessa classe. Essas declarações podem ser julgadas como atitudes de um louco revoltado, mas antes que me atirem pedras prefiro atirar pérolas aos porcos.
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Abril 22, 2008 de epifaniasvirtuais

Na prosa poética dos traços do destino
nas linhas das mãos
Conduzo a partida
do olhar cigano
em idas
e
sadniv
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Abril 22, 2008 de epifaniasvirtuais

Seguindo o modelo clariciano de um dos títulos da obra A hora da estrela - .Quanto ao futuro. - resolvi iniciar este post falando das coisas que têm me sufocado indefinidamente por dias a fio, me limitado, me tirado a energia vital. Tenho a impressão quase certeira de que o mundo me cobra demais. São provas, notas, correções, vídeos a gravar, oficinas, livros, leituras a fazer, artigos a escrever, livro pra organizar, congressos pra participar, origamis, provas pra elaborar, médias a fazer… Nem que eu fosse mil daria conta de tanta coisa ao mesmo tempo e aí chega uma hora em que deixamos de ser gente pra sermos/estarmos nessa onda tresloucada da vida exigente da academia transformados em máquina reprodutora de conhecimento. Possivelmente transformados em robôs, máquinas capazes de dar conta de tudo e de todos quando reguladas. Acredito na verdade, estando em desabafo profundo nesse instante, que me desregularam completamente. Onde fica a minha vida pessoal? As minhas conquistas existenciais? Os meus momentos de felicidade a serem divididos com as pessoas que amo? A vida é tão curta, tão frágil pra ser tão inutilmente burocrática e mecânica. A sensação de taquicardia me invade. São tantas atividades cobradas e realizadas ao mesmo tempo que não chego a dormir direito, mal aproveito os feriados pensando nas coisas a fazer, a organizar… Queria poder ao menos ter um dia completamente meu, sem em instante algum me embotar pelas cobranças importunas dessa sociedade capitalista e industrial. Queria que meus estudos tivessem menos teoria e mais sentimento. Que o homem fosse mais humano e menos máquina. Que as pessoas educadamente dessem bom-dia aos outros. Que a frieza não mais habitasse os corações. Que eu pudesse apreciar nas mínimas coisas o sentido pleno da vida. Embora tudo possa parecer piegas, é justamente aí que reside o cerne da saída no fim do túnel.
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Abril 12, 2008 de epifaniasvirtuais

Uma das coisas mais dolorosas e misteriosas dessa existência é a morte. Discutida e rediscutida por filósofos, questionada pelos cientistas, louvada por poetas, essa constante e certeira inimiga está sempre a nos espreitar e nos levar à frialdade inorgânica da terra, como já dizia Augusto dos Anjos em seus célebres poemas, nos quais a morte se transfigura sob a forma do verme.
Essa semana fui arrebatado pela triste notícia da morte de Tio Antônio. Não tínhamos muito contato, embora morássemos na mesma cidade e em ruas próximas. Era o tipo de pessoa com quem se conversava pouco, mas se sentia enorme satisfação de estar por que você se sentia querido e amado por ele. Impossível não ver seu Antônio e não lembrar de meu avô, irmão de coração dele e também Antônio. Fisicamente muito parecidos, embora diferentes em algumas atitudes. Perder um membro da família é também perder um pouco de nós, temos a sensação de que estamos fragmentados em cada um deles: nos gestos, no olhar, no corpo, nas atitudes… E quando eles se vão morremos um pouco com eles por que traiçoeiramente não sabemos o que nos espera do outro lado, da fonte misteriosa e oculta da morte. Restam-nos as lembranças enquanto a mente ainda nos permitir que elas existam, resta o amor e a saudade dos que ficam e a eternidade tratará de fazê-los ser sempre nossos assim como nós sempre um pouco dos que virão. É o ciclo maravillhoso da vida. Mesmo depois de 10 anos da morte de meu avô ainda lembro dele como se a sua mão me segurasse e me conduzisse pelos caminhos difíceis. É uma força que não sei explicar, mas o sinto sempre perto de mim com a sua atitude calma e consoladora, com a sua palavra sempre confortante. Fico imaginando como é viver com alguém por mais de 50 anos como minha avó e minha tia Dada viveram e depois ter que se despedir dessa pessoa e nunca mais vê-la. Deve ser uma dor incomensurável, terrível, que não gostaria de viver, nem de dar a ninguém e me angustio com isso quando me ponho a refletir sobre essas questões.
Fico pensando que se duas pessoas se amam verdadeiramente a ponto de doarem suas próprias vidas uma em nome da outra, deveriam ser arrebatadas juntamente para que unificados pudessem sentir a transcendência e atravessar os portais do mistério indizível do outro lado da vida. Restam agora as saudades e o conforto que os dias trarão lentamente. Cada objeto usado pela pessoa, cada canto pelo qual ela passou será lembrado, chorado, revisto e amado com idolatria. Lembro-me de minha mãe ter colocado por exatamente um mês o prato do meu avô na mesa acreditando que ele ainda viria almoçar ou jantar conosco. Com o tempo ela percebeu que ele não viria e não mais colocou. Vou terminar esse post por que as lágrimas já não me deixam mais escrever.
Aos Antônios de minha vida minhas saudades eternas e o meu amor incondicional, sempre.
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Abril 8, 2008 de epifaniasvirtuais

Nas oscilações da existência, quero louvar as desilusões cotidianas, as tantas vezes que tenho sido tentado a tentar inúmeras vezes perfazer os mesmos caminhos - embora sabendo que nunca são os mesmos - e fazer a vida parecer um moinho, uma encenação circular e ritualística. Os deuses me assistem do alto e performaticamente atuo para que as luzes do espetáculo continuem acesas, as tochas, o fogo abrasador permaneça na chama intocável e inebriante dos olhares inertes perante as expressões dos corpos, as formas voluptuosas das indumentárias e o cheiro produzido nesse incensar de sinestesias, de idiossincrasias.
Tomado pela mão imaculada dos que constroem as tortuosas, sinuosas linhas serpenteadas adâmicas lanço-me ao pecado dos frutos comezinhos, das sementes do desejo inopinado dos dias e na incerteza de horas sempre impecáveis e limpas, torno-me mortalmente imortal em um eterno transitar de desilusões triviais e poeticamente profanadas pela boca dos loucos e indesejados poetas.
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Março 31, 2008 de epifaniasvirtuais

A partir de hoje - aproveitando o ócio desse dia nublado e inquietante - começarei a postar opiniões sobre minhas leituras, sejam elas por pura fruição, necessidade acadêmica ou de trabalho.
Nosso post inaugural é o grandioso conto “The bear came over the mountain”, da escritora canadense Alice Munro. Descobri Munro quando iniciei as minhas pesquisas para o doutorado. Em meio a um sem número de autoras possíveis de serem comparadas à autora Clarice Lispector, que já tem lugar cativo em meus estudos acadêmicos, a minha pretensa orientadora indicou-me a canadense.
O conto narra a história de Fiona, uma mulher por volta dos setenta anos, casada com Grant, professor de literaturas nórdica e inglesa, moradora de uma pequena cidade do interior do Canadá. Fiona sofre de uma doença degenerativa da memória e aos poucos começa a esquecer os seus afazeres e as pessoas que fazem parte de sua vida. Com a difícil tarefa de interná-la, mas ao mesmo tempo buscando a cura da esposa, Grant acaba por colocá-la em Meadowlake, uma espécie de internato para tratamento de pessoas com mal de Alzheimer.
Dona de uma narrativa intrigante, bem construída, centrada nos pormenores e, o melhor de tudo, imprevisível, Alice Munro vai construindo sua narrativa através da mudança de focos e passa o conflito inicialmente da esposa, para o marido. Ele passará a contar suas aventuras sexuais, seus casos de infidelidade e seu medo de ser trocado por Aubrey, um paciente por quem Fiona parece completamente apaixonada. A missão de Grant agora é reconquistar a esposa. Se ele conseguirá ou não, deixo a vocês a missão de descobrirem através da leitura do conto, uma leitura prazerosa que nos prende do início ao fim. Aproveitem para ler os outros oito contos que fazem parte do livro “Ódio amizade namoro amor casamento” lançado no Brasil pela Editora Globo e adentrar o universo feminino instigante de outras tantas mulheres tão fascinantes quanto Munro e Fiona.

Para os amantes das adaptações literárias para o cinema, a versão de Sarah Polley para o conto de Munro é uma ótima opção. A jovem diretora canadense concorreu ao oscar de melhor roteiro adaptado traduzindo para as telas de maneira sensível e comovente o conto dando-lhe um novo título e roupagem: Away from her (Longe dela). Uma boa pedida.
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Março 31, 2008 de epifaniasvirtuais

Amanheci com a sensação de ter causado algum dano a alguém, talvez pelo fato de ter faltado ao trabalho. Estou com inflamação na garganta e dores no corpo que insistem desde ontem em ficar. Não sei se tenho mais um desses vírus ou fui acometido pela dengue pela milésima vez. Espero que nem um nem outro, que tenha sido apenas um alarme falso do corpo, que vez por outra tem isso. Ando cansado, entediado, vejo as coisas cada vez mais se estreitando, os dias passando, eu lutando cada vez mais e vendo cada vez menos conquistas concretas. Espero que essa luta não dure muito tempo, pois não sei se terei forças para suportá-la. Talvez o recomeço seja uma boa opção. Muitas vezes pensei em largar tudo que fiz até aqui, começar uma vida nova, em um novo lugar, com perspectivas diferentes. Às vezes sair do próprio ninho é necessário. A gente se acomoda muito com a situação pré-configurada, com as bases e esquece de edificar o prédio inteiro. Será que até aqui escolhi as coisas certas? Será que passei pelos caminhos que me conduziriam à felicidade plena? Ou até mesmo: o que seria essa felicidade? Talvez hoje, nesse descanso nada planejado, eu tenha que rever muitos conceitos e, mesmo que não venha a radicalizar, ao menos terei passado pelo caminho da reflexão. Nada mais será igual.
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Março 9, 2008 de epifaniasvirtuais

Encontrei perdidos entre os escritos de um caderno algumas coisas que anotei enquanto estive no sertão em fevereiro desse ano. Dizem assim:
Sonhos trágicos possuíram minhas noites insones. Três longas noites de calor e pernilongos insistentes. A chuva do sertão caindo ferozmente no telhado produzia uma melodia agradável aos ouvidos e o cheiro de terra molhada provocava em mim as mais saborosas reminiscências da infância. Dormir sob os lençóis com cheiro de orvalho, ouvir os trovões, perceber os raios entre as frestas do telhado, sentir os grãos de areia caindo sobre o rosto, são sensações que não temos longe do sertão.
Aqui tudo parece ter um valor inestimável e único, mesmo as dores mais individuais tornam-se dores coletivas. A família unida à mesa, as águas correndo nas barragens e rios, os risos, as lembranças, a alegria vivida, sentida, alcançada… momentos que ficarão eternamente guardados em mim, ainda que o tempo insista em apagá-los de minha memória.
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Março 9, 2008 de epifaniasvirtuais

Vez por outra cobre-me a sensação de ser um estranho no ninho. Aquele estranhamento comigo e com o mundo, uma espécie de deslocamento, como se eu fosse um autista, vivendo em meu próprio universo. Um mundo que construí forçosamente ou involuntariamente pra mim mesmo e do qual os outros não fazem parte, a não ser como elementos desencadeadores desses instantes por vezes indesejados, desse esdrúxulo sentimento. Vou elencando aos poucos os meus gostos e comportamentos, e vendo que as minhas leituras, a minha ótica das coisas em ver que há mais filosofia em tudo do que os outros percebem, tudo isso me distancia daquilo que eu denominaria “massa de pensamentos unilaterais”. As pessoas se resumem a um lado ou seguem o pensamento das multidões, se envolvendo na enredada trama dos ditames e das tendências.
Eu vou seguindo o que me vem inesperadamente, o que me cai às mãos, às vezes sem escolha, sem medo, sem ansiedade, sem ausência ou presença. Eu sigo o que me vem perfilado, frente a frente comigo, desfilando como versos melódicos à procura de estrofes pra se enfileirarem numa poesia toda. Vou montando meus paradoxos, construindo minhas metáforas, sentindo-me ora sinestesia ora catacrese, distribuindo-me entre aliterações e assonâncias.
Vejo o vórtice do verso velado velando o vulto do vago viajor.
Ouço meus passos seguindo na estrada das palavras.
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